Publicado em 27 Nov. 2025 às 18:53, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia)
O ator e realizador inglês Harris Dickinson evita o postal turístico e o sensacionalismo social, num retrato contido e empático de um homem perdido nas margens da cidade, notável pela contenção e talento de Frank Dillane.
Dizia o ator Frank Dillane, londrino de nascimento e criação, perante a bem composta plateia que assistiu à apresentação no Leffest do filme que protagoniza, "Urchin – Pelas Ruas de Londres", que a direção de Harris Dickinson, o realizador, e as suas instruções para com a diretora de fotografia passaram por tentar evitar que os planos exteriores capturassem monumentos característicos da capital britânica, tentando assim que a Londres representada se afastasse do estereótipo turístico.
Não que a representação escolhida por Dickinson seja propriamente a de uma Londres sombria ou subterrânea, mas é retratada com o distanciamento suficiente para que em Urchin não se corra o perigo de invocar tentações de fascínio.
Tal decisão adequa-se à toada realista que o ator e realizador inglês Harris Dickinson, na sua estreia em longas-metragens, aplica a este drama desenvolvido em redor da personagem interpretada por Dillane, Mike - toxicodependente e sem abrigo, uma espécie de espectro a errar pelas ruas da cidade.
O filme arranca a partir de um episódio de violência protagonizado por Mike, que culmina na sua detenção por assalto e agressão, o que o leva a ficar entregue ao sistema institucional, que o prende, primeiro, e o tenta reintegrar depois.
Neste particular, Dickinson faz as primeiras escolhas de condução da narrativa, evitando mostrar hostilidade na forma como apresenta o contacto que Mike tem com as instituições que gerem a sua vida a partir da detenção. Não há um guarda prisional tirano, ou uma assistente social venal. Não há, no confronto de Mike com o estado, qualquer tipo de exploração da vulnerabilidade do sujeito, mas antes um distanciamento neutral que permite apontar o foco ao processo interno de conflito que Mike se vê forçado a encarar.
De facto, a ação essencial de Urchin passa-se na relação de Mike com as suas próprias urgências e fragilidades. A habilidade de Dickinson e Dillane para construir a personagem além do arquétipo, acaba por ser decisiva para que a fórmula resulte.
Nada sabemos de fundamental no passado de Mike que o possa ter encaminhado para a situação em que se encontra e apenas somos subtilmente conduzidos a intuir sobre a existência de laços familiares que se degradaram mais por consequência que por causa da precariedade em que Mike vive.
Ao ilibar o passado de Mike, Dickinson escusa-se a qualquer determinismo sociológico sobre as causas da dependência e da marginalização social, acentuando essa convicção através da personalidade dócil e empática de Mike, tanto que o episódio de violência é de tal forma alheio ao que entendemos da personagem que quase parece um elemento ex-machina usado por Dickinson para dar marcha à narrativa.
Se há pecado que podemos apontar a Dickinson é a forma algo mecânica como nos conduz pela mão de modo a que a recaída de Mike nos pareça inevitável, deixando-nos apenas a dúvida sobre quando e qual a circunstância que o deitará abaixo e o fará regressar ao ponto de partida, pese embora que a ideia cíclica do mito de Sísifo possa fazer sentido na componente alegórica que o realizador inglês se propôs a explorar.
Ainda assim, Dickinson não só mostra talento para dar um arco narrativo às suas personagens (aqui com o contributo inestimável de um sólido Frank Dillane), como também prova saber gerir as ambiguidades necessárias para evitar que a história caia num conto moralista, intercalando o naturalismo das cenas com interlúdios oníricos para, mais do que desvendar, retratar a desordem que habita o subconsciente da personagem.
Embora não possa presumir de ter reinventado a roda, Dickinson sai ileso da sua estreia e demonstra ter bases e referências suficientes para, de futuro, aperfeiçoar uma linguagem própria.