Publicado em 27 Feb. 2026 às 17:45, por Samuel Andrade, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: Síndrome do Vinagre)
Este ano começou com a revisitação de um antigo formato que volta a estar na moda.
"A vida do VistaVision foi curta e o seu fim definitivo. No entanto, ver como oferece uma imagem mais nítida, destacando com tanta clareza as relações entre as pessoas e os objetos no ecrã, é como um sonho tornado realidade."
Peter von Bagh, catálogo do festival Il Cinema Ritrovato 2004
Em virtude de uma atividade profissional centrada em projeção e preservação cinematográficas, as minhas obsessões em torno de cinema têm incidido nas suas especificidades técnicas. Nos últimos tempos, o renascimento comercial e artístico do formato VistaVision levou-me a efetuar algum "trabalho de pesquisa". E ao desejo de partilhar as conclusões otimistas que dele resultou.
Lançado pela Paramount Pictures em 1954, o VistaVision surgiu em resposta à popularidade da televisão nos lares norte-americanos naquela década causando menor afluência às salas de cinema (já voltaremos a este ponto) e, como "arma" de concorrência face a sistemas de projeção horizontal (ou widescreen) introduzidos por outros estúdios: o CinemaScope, o Cinerama, o Super 35... Desenvolveu-se, assim, o "elemento unitário" do VistaVision, ou seja, o seu negativo fílmico.

Assente em película de 35mm, com oito perfurações por fotograma (o dobro do usado nos restantes suportes) e correndo horizontalmente em câmaras próprias, o negativo do VistaVision permite a captura de imagens com dimensão, detalhe, claridade e definição superiores. Idealizado para uma apresentação em 1.85 (um equivalente ao 16:9), o formato pode ser convertido em cópias de 35mm ou 70mm, e minimiza efeitos de distorção ou desfoque que podem surgir, por exemplo, numa projeção em CinemaScope.
Qualidade de imagem e flexibilidade de utilização garantidas, como foram essas características aplicadas na produção cinematográfica? A resposta reside, inevitavelmente, nos filmes rodados em VistaVision – o que originou, portanto, a maratona descrita no título deste texto.
Entre 1954 e 1961 (ano em que caiu em desuso), estrearam cerca de 100 títulos em VistaVision. Devido ao seu aparato tecnológico e pela consolidação de outros processos widescreen, o western "Cinco Anos Depois" (1961), de Marlon Brando, foi o último título produzido nesse formato, até à sua recuperação, em 2024, por Brady Corbet no seu "O Brutalista".
Pelo meio, e de modo curioso, a esmagadora maioria dos filmes em VistaVision não ficaram para a história. Segundo vários registos, Alfred Hitchcock era um particular aficionado do formato: rodou cinco títulos nesse processo, incluindo "A Mulher que Viveu Duas Vezes" (1958) e "Intriga Internacional" (1959). John Ford recorreu ao formato em "A Desaparecida" (1956), e Cecil B. DeMille utilizou-o no seu épico bíblico "Os Dez Mandamentos" (1956).
Além destes clássicos, o VistaVision foi matéria-prima para melodramas com Sophia Loren ("The Black Orchid" e "Desire Under the Elms", ambos de 1958), comédias de Jerry Lewis ["Pintores e Raparigas" (1955), "Jerry no Japão" (1958)], filmes de aventuras ["A Montanha" (1956)], musicais extravagantes ["Natal Branco" (1955), "Alta Sociedade" (1956), "Cinderela em Paris" (1957)], adaptações de Shakespeare por Laurence Olivier ["Ricardo III" (1955)], épicos históricos ["Guerra e Paz" (1956)] e dramas com algum sumo narrativo ["Horas de Desespero" (1955), "Garras de Mulher" (1956), "Orgulho e Paixão" (1957), "Uma Certa Mulher" (1959)]...
Embora tenha sido peça fundamental para a afirmação de formatos widescreen na Sétima Arte, o legado do VistaVision, no que à definição de prestígio em cinema diz respeito, não será impressionante. Talvez explique por que muitos destes filmes não mereceram restauro e/ou edições home cinema recentes, ou porque são pouco vistos fora de contextos específicos de programação (por exemplo, em 2004, o festival Il Cinema Ritrovato organizou uma pequena mostra dedicada ao formato).
Alimentei, assim, esta obsessão com uma maratona de VistaVision. Apesar do visionamento em condições duvidosas de alguns títulos e de nem sempre sentir a dita experiência cinéfila revigorante, a qualidade técnica do formato foi uma constante ao longo deste processo.
Do melodrama romântico ao great american outdoors do western, revelou-se indubitável como o negativo do VistaVision proporciona imagens com vigorosa definição tanto em Technicolor como a preto e branco, de foco impecável em planos com profundidade de campo e um maleável recurso para enquandramentos de verticalidade e horizontalidade simultâneas.

"Horas de Desespero" (1955, William Wyler, Paramount Pictures)

"A Desaparecida" (1956, John Ford, C.V. Whitney Pictures / Warner Archive Collection)

"A Montanha" (1956, Edward Dmytryk, Paramount Pictures)

"The Black Orchid" (1958, Martin Ritt, Paramount Pictures)

"Intriga Internacional" (1959, Alfred Hitchcock, Metro-Goldwyn-Mayer / Turner Entertainment)
Chegados ao século XXI, o VistaVision volta a estar na moda. "O Brutalista" deu o mote para o seu renascimento e, em menos de dois anos, pudemos observar o formato em "Bugonia", "Batalha Atrás de Batalha" e em várias sequências do recém-estreado "O Monte dos Vendavais". Tal como há 70 anos, o seu potencial de dimensão e definição, mesmo para o espectador pouco familiarizado, são rapidamente visíveis.

"O Brutalista" (2024, Brady Corbet, Brookstreet Pictures / Kaplan Morrison)

"Bugonia" (2025, Yorgos Lanthimos, Focus Features)

"Batalha Atrás de Batalha" (2025, Paul Thomas Anderson . Warner Bros. Pictures)
A moral desta "empreitada"? Para além da evidente predileção pessoal pelo formato, permaneceu a convicção de que o mesmo é uma ferramenta essencial no seio do (também) renovado conflito entre salas de exibição e meios domésticos – sobretudo, o streaming – de fruição do cinema. É já incontornável a opinião de que a sobrevivência, financeira e estética, da sala de cinema passa pela aposta nos grandes formatos de projeção. Logo, o uso, desenvolvimento e normalização das potencialidades do VistaVision (como já se verificou, a sua aplicação em IMAX ou no analógico 70mm é tremendamente eficaz) será determinante neste processo.
Outras considerações se poderiam tecer, mas, para incrementar o sucesso desta retórica, uma imagem vale mais do que mil palavras. Por isso, termino com a partilha de um fotograma.

"A Mulher que Viveu Duas Vezes" (1958, Alfred Hitchcock, Alfred J. Hitchcock Productions / Universal Studios)
Segundos antes de um momento pivotal em "A Mulher que Viveu Duas Vezes", vemos uma solitária Kim Novak, com a Baía de Sáo Francisco e a Ponte Golden Gate ao fundo. Três elementos, absolutamente díspares na forma, que assumem imensidão, rigor formal e clareza profunda quase idênticos. Por outras palavras, isto é o VistaVision: "mais nítido, maior, melhor".