Cartaz de cinema

"O Síndrome do Vinagre" por Samuel Andrade
Um prazer analógico em tempos digitais

Publicado em 30 May. 2026 às 09:45, por Samuel Andrade, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: Síndrome do Vinagre)

Um prazer analógico em tempos digitais

Alguns entusiastas anónimos têm digitalizado cópias de projeção em 35mm sem restauro. A discussão sobre as implicações deste trabalho não demorou.

Em textos anteriores, falou-se aqui sobre os méritos e circunstâncias da experiência do cinema em sala e do modo como os filmes, a cada versão ou restauro digital, assumem um visual e estética apartado das suas manifestações antecedentes. 

Nos últimos anos, estes dois temas, aparentemente sem correlação, alcançaram, para gáudio pessoal, uma nova e surpreendente dimensão que exige análise neste espaço.

Sensivelmente desde 2024, um conjunto de entusiastas dedica-se a digitalizar cópias de projeção em película de 16mm e 35mm, pertencentes a colecionadores privados, e a disponibilizar os resultados na Internet em fóruns exclusivos, redes sociais, plataformas de média... Além disso, excetuando ocasionais correções para redução de degradação cromática, essas digitalizações (com resolução a variar entre os 1080p e o 4K) surgiram com o rótulo de não exibirem qualquer trabalho de restauro digital.

Em suma, são ficheiros para reprodução em leitores VLC e Quicktime, que preservam os defeitos e as marcas do tempo de cópias com historial – provavelmente, muito longo – de projeção: o típico grão presente na película, riscos na emulsão fruto de projetores sujos e com deficiente manutenção, vestígios de colagens, ruído e estalidos na banda sonora, as marcas de mudança de projetor (também conhecidas por cigarette burns) presentes no final de cada rolo, etc.

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Um prazer analógico em tempos digitais 1/5: "Psico" (1960, Alfred Hitchcock) – grão, picotado, risco fino no canto superior esquerdo e puro contraste a preto e branco.

Nessas condições de imagem, alusivas a "museológicos" métodos de como se deu a ver cinema durante mais de um século, partilham-se digitalizações de títulos como "Eyes Wide Shut - De Olhos Bem Fechados" (talvez o caso mais célebre deste fenómeno e já aqui mencionado), "A Mulher Que Viveu Duas Vezes", "Psico", "A Noite dos Mortos-Vivos", "Taxi Driver", "Blade Runner – Perigo Iminente", "Quem Tramou Roger Rabbit?", os quatro filmes de Indiana Jones, episódios da série "Dragon Ball Z" e, inclusive, o soviético "Stalker" de Andrei Tarkovsky. Há para todos os gostos.

Desta inusitada combinação de analógico e digital, nasce uma série de reflexões. A começar, se esta não será uma curiosa finta às leis da pirataria online clássica – honestamente, não investiguei esses trâmites, mas fica aqui o mote para quem o desejar fazer.

Importam-me mais os efeitos estéticos de uma prática que se revela movida por paixão pessoal (no fundo, ninguém está a lucrar com estas digitalizações) e pela preservação de uma experiência de exibição cinematográfica cada vez mais rara numa indústria dominada pela imagem digital, geradora de crescentes exercícios de debate sobre como os filmes e respetivas matrizes analógicas, estão a ser modificados para transposições em Digital Cinema Package (DCP) e Blu-Ray.

Observar uma destas digitalizações é, acima de tudo, recuperar a sensação da projeção em 35mm, mas a partir de um ecrã de computador. Independentemente de outros fatores que possam permear a experiência – por exemplo, a calibragem e iluminação de monitores –, a presença, intacta, das imperfeições da película sobrepõe-se ao facto de a usufruirmos via ficheiro digital.

Por outro lado, proporciona-se conhecimento, nem que seja aproximado, do preciso aspeto de um filme na sua época de estreia – e assumo, de novo, o polémico desta afirmação. 

Sim, cópias em 35mm podem ter problemas de impressão; e é óbvio que muitas não foram cunhadas a partir de elementos negativos. Todavia, lembremos que até um restauro digital depende, na parte significativa dos casos, do visionamento de uma cópia de projeção como referência. E, no final, a fidelidade a essa fonte também não é isenta de subjetividade: o chavão "4K scan of the original camera negative" tanto significa respeito, ou pura (re)interpretação de uma matriz fílmica.

Da mesma forma, é válido questionar as condições técnicas em que estas digitalizações foram produzidas, impedindo, assim, a convicção de que esses materiais são exatas representações da visão original de um filme. Contudo, as mesmas dúvidas aplicam-se aos restauros digitais que, todos os anos, figuram na programação de festivais, ou são alvo de reposição nas salas comerciais. A pormenorização, ou descrição sumária dos seus detalhes, nunca é informação pública – e, na minha opinião, essa omissão é sério assunto para debate.

Em suma, devemos saudar as discussões, por vezes inflamadas, que surgem destas digitalizações. O mesmo se aplica à atenção que a comunicação social lhes tem dedicado, como na mais recente edição da revista Sight & Sound. Embora o tema apenas estimule uma reduzida comunidade de interessados, registo, com particular contentamento, a formação de uma cinefilia disposta a conhecer, partilhar, conservar e apreciar uma específica manifestação, com qualidades e defeitos analógicos, que tornam o cinema mais cinema.

Muito deste contexto, inevitavelmente, resume-se à questão de gosto. Mas que a questão fique sublinhada: não sou, nem nunca serei, um defensor de pirataria cinematográfica. No entanto, para os meus cansados olhos pela seca perfeição da imagem digital, estas digitalizações de cópias de projeção são para armazenar no disco externo mais à mão. Isto enquanto se alimenta a esperança de as ver convertidas para projeção em DCP numa sala de cinema.