Cartaz de cinema

"O Espírito da Colmeia" por Pedro Sesinando
"Três Vezes Adeus": a melancolia geométrica de Isabel Coixet

Publicado em 10 Jun. 2026 às 17:08, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia)

"Três Vezes Adeus": a melancolia geométrica de Isabel Coixet

A subtileza visual de Isabel Coixet e o rigor das interpretações não bastam para resgatar a adaptação do romance de Michela Murgia dos lugares-comuns da redenção existencial, percorrendo um caminho tão metódico quanto previsível.

Tem plena lógica, utilizando aqui a ambiguidade do termo entre o seu sentido mais literal e a ideia de previsibilidade, que "Três Vezes Adeus" da catalã Isabel Coixet, tenha como protagonista Alba Rohrwacher no papel de Marta. 

De facto, a construção da personagem, bem como as circunstâncias em que esta evolui ao longo da história, são muito evocativas de anteriores papéis protagonizados pela atriz toscana, cuja mera presença emana para a tela um particular peso melancólico e uma mistura de introspeção com uma certa gravidade fatídica que Rohrwacher parece conseguir transmitir com toda a naturalidade. 

Se por um lado, é o desempenho de Alba Rohrwacher que assegura alguma solidez que sustenta o filme, por outro, tanto excesso de familiaridade não permite que "Três Vezes Adeus" saia do torpor em que se deixa enredar, com a agravante de não raras vezes se deixar seduzir pelo melodrama. 

Baseado no livro homónimo da já desaparecida escritora italiana Michela Murgia, "Três Vezes Adeus" começa com a separação de Marta e Antonio (Elio Germano), acompanhando a partir daí a forma como lidam com a rutura. 

A história de Antonio daí em diante é relativamente plana – dedica-se a uma terapêutica revisitação do passado e a redescobrir os lugares de Roma onde foi feliz. Já a de Marta ganha contornos mais trágicos, ao ser confrontada com uma doença potencialmente incurável e fatal.

É a partir deste diagnóstico que o filme se decide arrancar, após um primeiro ato em que circula sobre si mesmo. Embora ganhe outra dimensão e nos apresente personagens que enriquecem a narrativa, como Agostino, o colega professor, ou a Dra. Benati, a médica de Marta, não consegue escapar ao lugar-comum da epifania existencial onde o valor da vida se revela no confronto com a própria mortalidade. 

Acompanhamos, então, Marta a atravessar diversos estados de espírito, da depressão a um novo lugar emocional mais luminoso, desperto perante a sua vida e a das que a rodeiam, terminando com a protagonista a encontrar a pacificação perante a morte e a fazer as pazes com os seus ressentimentos. 

Sendo legítima a opção de Coixet explorar estes conceitos de turbilhão emocional pela iminência da morte e, até, fazê-lo de forma tão arrumada - ressalvando positivamente que a realizadora espanhola evita entrar no voyeurismo de dar visibilidade física à manifestação da doença - fica também a ideia de que "Três Vezes Adeus" tem receio de escavar para lá da superfície, conduzindo-nos pelos estádios emocionais de Marta com uma precisão quase matemática, como num exercício de pedagogia. 

Não é o melhor dos sintomas quando um filme se assemelha a um livro de autoajuda. Resta-nos a fiabilidade dos desempenhos, e as imagens de uma Roma taciturna embora reconhecível, filmadas sob uma paleta incomum para uma cidade que parecia ter já sido capturada de todas as formas possíveis.