Cartaz de cinema

"O Síndrome do Vinagre" por Samuel Andrade
"The Chess Game of the Wind": a história do filme perdido no Irão do Ayatollah

Publicado em 14 Out. 2020 às 15:03, por Samuel Andrade, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: Síndrome do Vinagre)

"The Chess Game of the Wind": a história do filme perdido no Irão do Ayatollah

Recentemente restaurado, o filme de Mohammad Reza Aslania lança nova luz sobre o cinema iraniano dos anos 70.

Banido comercialmente pelo regime de Ayatollah Khomeini em 1979, "The Chess Game of the Wind" (realizado, em 1976, por Mohammad Reza Aslani, sendo também identificado como "The Chess of the Wind") transformou-se, ao longo das décadas, num dos objetos mais singulares da história do cinema iraniano, tendo adquirido o estatuto de filme perdido até à redescoberta de uma cópia em 2014.

Descrito como um thriller gótico, "The Chess Game of the Wind" detalha os infortúnios e as tensões no seio de um clã secular, logo após a morte da matriarca, centrando-se nas disputas subsequentes entre os vários herdeiros daquela família.

À época da estreia, e conforme os registos históricos existentes, "The Chess Game of the Wind" foi apenas exibido duas vezes em Teerão, tendo sido particularmente mal recebido pela crítica do seu país (rotulando-o de "demasiado intelectual" e "mera imitação do cinema europeu"), ao passo que as suas ambiências sombrias e repletas de sensualidade, personagens femininas corajosas e alusões a homossexualidade levaram a que o filme fosse retirado de circulação pelos responsáveis da censura iraniana.

Com os inevitáveis tumultos sociais e culturais que se seguiram à Revolução Iraniana de 1979, tornou-se impossível ver o filme, acabando por figurar nas listas elaboradas pelos arquivos cinematográficos de títulos considerados perdidos (de acordo com algumas fontes, terão existido cópias em formato VHS e de má qualidade). Na busca por "The Chess Game of the Wind", a filha do realizador, Gita Aslani Shahrestani, foi figura preponderante, uma genuína protagonista na história da redescoberta de um filme.

The Chess of the Wind

Em 2014, Gita visitou uma loja de ferro-velho e viu que nas prateleiras se encontravam diversas caixas de filmes. Ao indagar sobre o conteúdo daquelas bobines, o proprietário da loja afirmou não saber, acrescentando que estavam à venda apenas como "objeto decorativo". A filha do realizador localizou numa das caixas uma cópia completa do filme do seu pai – e como "The Chess Game of the Wind" ainda se encontra banido no Irão, rapidamente tratou de o expedir clandestinamente para Paris, em prol da sua revisão e preservação.

Restaurado digitalmente pelo The Film Foundation"s World Cinema Project, em colaboração com os laboratórios da Cineteca di Bologna, o filme foi exibido nas últimas edições de certames como o Il Cinema Ritrovato, ou o BFI London Film Festival, possibilitando, assim, uma reapreciação do cinema iraniano produzido antes de 1979.

As reacções suscitadas pela redescoberta, afirmativas na comparação do filme à estética de cineastas como Luchino Visconti e Robert Bresson, têm, igualmente, o condão de espicaçar a curiosidade do cinéfilo mais exigente. Segundo Robin Baker, curador do BFI National Archive, o filme de Mohammad Reza Aslani "vai ter imenso impacto nos cânones do cinema mundial – a sua ambição é extraordinária. Possui uma ressonância que extravasa os limites do cinema iraniano", rematando "as plateias nunca viram nada assim, independentemente dos seus gostos cinematográficos".

Uma das atrizes, Shohreh Aghdashloo, que alguns conhecerão como a embaixadora Avasarala na série "The Expanse", manifestou em julho o contentamento que sentia por finalmente poder ver o seu primeiro trabalho no cinema, 45 anos depois.

 

Quanto a Gita Aslani Shahrestani não esconde o orgulho por conseguir reavivar, de forma quase inesperada, o legado do pai: "Quando vimos o trabalho de restauro, ele confessou que a experiência foi quase terapêutica, que lhe lembrou como ele sempre quis ser um cineasta. Estava realmente feliz, sem quaisquer remorsos. Para ele, o filme é como um filho perdido e, agora, reencontrado".