Cartaz de cinema

"O Espírito da Colmeia" por Pedro Sesinando
"Sem Alternativa": o delírio satírico de Park Chan-wook

Publicado em 12 Feb. 2026 às 16:34, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia)

"Sem Alternativa": o delírio satírico de Park Chan-wook

A partir do mesmo rigor formal de "Decisão de Partir", o realizador traça uma alegoria sobre o colapso do estatuto social e a precariedade no mundo corporativo.

Não será apenas por coincidência geográfica que, ao assistirmos a "Sem Alternativa" de Park Chan Wook, pensemos em "Parasitas", filme de outro nome grande do cinema sul-coreano, Bong Joon Ho, e que triunfou na cerimónia da Academia em 2020. De facto, embora arrancando de pontos de partida distintos, tanto "Parasitas" como "Sem Alternativa" entoam o seu processo narrativo numa lógica mordaz que não renega uma leveza quase cómica para construir uma alegoria mais sociológica que antropológica sobre as disfuncionalidades intrínsecas ao capitalismo.

Assim, onde "Parasitas" opta pela perspetiva classista, "Sem Alternativa" decide arrancar pelo caminho da caricatura do mundo corporativo, partindo da mais clássica das premissas, a de um homem que vive um idílio familiar e profissional e vê esta realidade desmoronar ao ser afetado por um despedimento coletivo decretado pelos novos donos norte-americanos da empresa onde trabalha há mais de duas décadas. 

Este evento é o pretexto para Park Chan Wook construir os seus quadros episódicos que balançam entre o macabro e o absurdo molièresco, induzindo o seu protagonista ao convencimento de que não há lugar para si fora da gloriosa indústria papeleira a que dedicou toda a vida profissional e que, com tal impossibilidade vem a revogação do adquirido estatuto pequeno-burguês e consequente condição material. Para voltar à vida ativa, Man-Su – assim se chama o protagonista - traça um plano que consiste em atrair a possível concorrência para uma falsa entrevista de emprego com o fim de a eliminar fisicamente.

Para explorar esta morbidez humorísitica e, tal como havia feito no anterior e magistral "Decisão de Partir", Park Chan Wook recorre a um cuidado quase artesanal na mise-en-scène, coreografando as cenas de forma a que se conjuguem perfeitamente com os apontamentos musicais, fundamentais para que o filme mantenha um tom igualmente cómico e sarcástico e crie o ambiente adequado para que entendamos o estado de alma do protagonista mais como desesperado que como amoral.

No entanto, a grande falha de "Sem Alternativa" é precisamente nunca conseguir levar a sério o objeto da sátira, perdendo-se na unidimensionalidade da crítica. Fica a ideia de um excesso de entusiasmo relativamente ao macabro da situação que resulta em que Chan Wook se esqueça de onde queria chegar, mantendo o foco num protagonista cada vez mais delirante.

De resto, o filme propõe ainda um ângulo que acaba por ser gerido com maior subtileza por Chan Wook, no subtexto inerente à personagem de Man-Su como arquétipo da fragilidade masculina, explorando esta característica no protagonista através do desconcerto emocional que este vive quando se vê afetado na sua condição de provedor da família e é confrontado com a decisão da mulher de regressar ao trabalho e, consequentemente, desenvolver relações pessoais e profissionais com outras pessoas. 

Talvez que, para "Sem Alternativa", fosse mais interessante a exploração desta vulnerabilidade e do anacronismo ainda latente na condição do homem e da mulher no casal, ao invés de se ficar pela superficialidade na crítica às relações laborais, ou à exploração de uma dicotomia vigente que impõe uma causalidade entre empregabilidade e dignidade. 

Por outro lado, e em defesa do cineasta sul-coreano, é possível que ambos os conceitos não possam ser abordados separadamente.