Publicado em 28 Dec. 2025 às 19:36, por Samuel Andrade, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: Síndrome do Vinagre)
Em 2025, Portugal acolheu 40 filmes rodados em película, mas continuamos sem ver cinema nesse suporte.
Entre todas as considerações que, de mês a mês, aqui debito, a bizarra obsessão de formular um "sumário analógico" de fim de ano é, definitivamente, uma das minhas preferidas. Nesse particular, em termos do que estreou de produções filmadas em película durante 2025, o balanço é gerador de otimismo e redobrados desejos de expansão dessa realidade (já iremos aos pormenores).
De janeiro a dezembro de 2025, contando com estreias em sala e lançamentos nas plataformas de streaming, Portugal teve a oportunidade de visionar 40 filmes rodados, inteira ou parcialmente, em suportes analógicos de 16mm, 35mm e 70mm.
Esta contabilidade é uma continuação do registo dos últimos anos, mantendo-se a diversidade geográfica e orçamental de produções desta natureza. Uma vez mais, ficou provada a polivalência dos suportes analógicos que, como a seguir se verifica, são matéria-prima para blockbusters, cinema independente, ou de autor.
Assim, 2025 trouxe-nos alguns dos trabalhos mais tecnicamente complexos que adornaram as telas, com "O Brutalista" e "Batalha Atrás de Batalha" a revisitarem formatos – no caso, o processo VistaVision – há muito em desuso.

"Nosferatu", de Robert Eggers, cópia em 35mm.
Cineastas como Robert Eggers ("Nosferatu"), Pablo Larraín ("Maria"), Andrea Arnold ("Bird"), Wes Anderson ("O Esquema Fenício"), Luca Guadagnino (em dose dupla: "Queer" e "Depois da Caçada"), ou Yorgos Lanthimos ("Bugonia") conservaram-se fiéis à película.
O sucesso de "Pecadores" renovou o potencial artístico e financeiro do 70mm enquanto suporte de exibição; "Mundo Jurássico: Renascimento", um dos filmes mais populares de 2025, foi filmado em 35mm; "Sirât" e "Colheita" – pessoalmente, duas experiências estéticas favoritas do ano – mostraram como o pequeno filme de 16mm é capaz de fulgorosa amplitude; e "Nouvelle Vague" (de forma quase poética, uma das últimas estreias em 2025) recorreu à película a preto e branco da Kodak para revisitar Jean-Luc Godard nos anos 60 e o seu "O Acossado".
Ao nível de cinema do mundo, a película também está viva e recomenda-se. Brasil ("Ainda Estou Aqui"), China ("Cão Preto"), Bélgica ("O Silêncio de Julie"), Grécia ("A Uma Terra Desconhecida") e Islândia ("No Romper da Luz") são disso exemplo. Portugal apresentou "Sob a Chama da Candeia", de André Gil Mata, e "O Riso e a Faca", de Pedro Pinho, como substantivos representantes de produção analógica na Europa.
Paralelamente ao circuito comercial, este ano assinalou o curioso fenómeno da película como ferramenta de marketing dos próprios filmes.
A comunicação social de grande alcance veiculou esse conceito sem pejo, com o New York Times a apelar ao entusiasmo dos espectadores de cinema em sala, realçando o formato VistaVision de "Batalha Atrás de Batalha" como a melhor razão para sairmos de casa e ver o filme em grande ecrã.
Por seu turno, a britânica Empire não hesitou em considerar 2025 como "o ano em que a película reinou", destacando, com vários exemplos, como esse suporte proporciona uma experiência de fruição de cinema inteiramente distinta.

"Marty Supreme", com Timotheé Chalamet, uma das primeiras estreias de 2026 rodadas em película.
Os primeiros meses de 2026, numa primeira análise, são prenúncio de continuação desta tendência: pelo menos até março, perfilam-se as estreias de "Marty Supreme", "Valor Sentimental", "A Cronologia da Água", "O Testamento de Ann Lee"... E o regresso de Christopher Nolan, cujo "A Odisseia" foi filmado em 70mm IMAX, ou a escolha de Denis Villeneuve do filme de 70mm para a terceira parte da saga "Dune", são garantia de que se vai falar bastante de cinema analógico durante o próximo ano.
Este rol, e as suas perspetivas, não menorizam o lugar do digital enquanto suporte reinante de produção e distribuição cinematográficas. É a realidade, crua e dura. Assim, a película mantém o seu estatuto de sobrevivente, mas com categórica evidência, no seio de rodagens de filmes um pouco por todo o planeta.
Chegados a estas conclusões, impera, portanto, um desejo de expansão (tal como enunciado no primeiro parágrafo, assim como num manifesto publicado, recentemente, neste espaço) da experiência analógica em sala. Por outras palavras, anseia-se o incremento da possibilidade de, nas redes de distribuição e exibição, ver em película aquilo que é realizado em película. Nesse âmbito, Portugal continua muito aquém do que se tem assistido e concretizado, até financeiramente, noutras latitudes.
O facto de, por exemplo, a Cinemateca Portuguesa – um dos poucos locais, no nosso país, onde é possível assistir com regularidade a projeções em suporte de 35mm – ter batido recordes de afluência demonstra que haverá público para sessões comerciais deste tipo. Um público que não pressente valor na apresentação digital nem no streaming e que busca a tal "experiência distinta" de presenciar o que torna o cinema singular perante as outras artes.
Pelo que 2025 representou e 2026 sugere, não faltará cinema em película para ver. Não existe, apenas e (esperemos) por enquanto, a iniciativa comercial que o possibilite.