Publicado em 13 Mar. 2026 às 19:47, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia)
Sandro Aguilar abdica do determinismo racional para edificar um mosaico de espaços em branco. Entre o onírico e o espectral, a longa-metragem convoca o espectador a preencher as lacunas de uma encenação onde o pesar não se explica.
Nas palavras do próprio, interpretando com alguma latitude as ideias que transpareceu após uma sessão especial de "Primeira Pessoa do Plural" no Cinema Ideal em Lisboa, há um propósito na linguagem cinematográfica de Sandro Aguilar que procura criar um vínculo com o espectador a partir do qual se consiga estabelecer um diálogo. Isto é, uma encenação construída com espaços em branco para que a plateia possa, ela mesma, encontrar maneira de preencher esses espaços através, acrescento eu, da procura de um lugar em comum com o autor.
Para o tema abordado em "Primeira Pessoa do Plural" – o luto, ou melhor dito, a gestão emocional de uma ausência – essa procura de estabelecimento de um laço empático entre ambos os intervenientes, ganha pleno sentido, considerando a violência emocional inerente a um processo de luto e tendo em conta que cada ser humano terá a sua forma própria de reagir a um evento com tamanha carga emocional.
É, portanto, a partir desta busca pela abstração que o filme de Sandro Aguilar parte à procura de sublimar a dor da ausência, de como esta se vive intimamente, ou num seio familiar, e de como pode assumir contornos erráticos, seguramente irracionais, sendo que, talvez, seja precisamente a irracionalidade o ponto transversal na experiência humana do pesar.
"Primeira Pessoa do Plural" constrói um mosaico familiar, constituído pelos pais Mateus (Albano Jerónimo) e Irene (Isabel Abreu), e o filho David (Eduardo Aguilar), marcados pela ausência de uma filha nunca nomeada e cuja morte nos é apenas sugerida, embora de forma bastante vincada. Mateus e Irene são presenças espectrais que deambulam entre um ambiente real e o onírico, entre a letargia e um estado de negação quase feliz, comunicando e movimentando-se de uma forma teatral, por vezes maquinal.
Se a composição das personagens marca o tom do filme, em que o absurdo não é renegado, também uma certa não linearidade da narrativa condiz com essa mesma composição, acentuando em Mateus e Irene, especialmente, uma qualidade de náufragos, no modo em que o seu compromisso em sobreviver é tão forte como a vertigem pela morte, numa espécie de corte macabra que paira sobre o filme, de forma mais ou menos explícita. De facto, Mateus e Irene estão empenhados em avançar para lá da dor, ou apesar da dor, algo que se entende pelo entusiasmo que colocam na celebração do 20.º aniversário de casamento que se consumará com uma viagem a uma ilha dos trópicos.
Depois há a personagem de David, o filho/irmão, essencial para evitar que "Primeira Pessoa do Plural" se perca no seu próprio labirinto, porque embora vivendo no mesmo espaço emocional que Mateus e Irene, assume o naufrágio de uma forma mais agitada, em contraponto com a indolência febril dos pais. David restitui também alguma normalidade no discurso e no contacto com o mundo exterior, dando algum descanso a um filme que se passa maioritariamente dentro da cabeça das suas personagens e no escuro da casa da família, elemento que funciona como santuário de memória da filha e fator de opressão, um casulo onde a família se pode concentrar na própria dor.
Voltando à proposta tal como interpretada a partir da exposição do realizador, "Primeira Pessoa do Plural" não só rejeita a racionalidade no luto, como afasta o próprio conceito de irracional no sentido em que não se propõe a considerar que existam maneiras apropriadas de processar uma ausência, renunciando a esse determinismo para procurar o reflexo do outro.