Publicado em 20 Jan. 2026 às 11:03, por Samuel Andrade, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: Síndrome do Vinagre)
Uma "crítica técnica" a um filme sem medo de afirmar a sua materialidade analógica.
Por estes lados, o hábito do texto centrado em exclusivo na forma de um filme (e, sim, deixando, momentaneamente, o seu conteúdo "de parte"), adquire mais força de cada vez que surge no nosso radar um título como "Peter Hujar's Day".
O novo trabalho de Ira Sachs, inteiramente rodado em película Kodak de 16mm, dramatiza uma série de entrevistas, conduzidas pela escritora Linda Rosenkrantz, em dezembro de 1974, com o fotógrafo Peter Hujar, sendo-lhe pedido que narre o seu percurso e interações nas 24 horas anteriores.
É obra de simples narrativa: somente dois protagonistas (Ben Whishaw e Rebecca Hall) num único espaço cénico, onde o recurso ao monólogo preenche consideravelmente o argumento. No entanto, não se invoque o substantivo "teatral" para classificar "Peter Hujar's Day".
A jusante das experiências diárias de Peter Hujar – reveladoras da psique de um artista nova-iorquino indigente, homossexual numa época em que essa orientação estava na raia da marginalidade, e a braços com o dilema de um trabalho para o New York Times sobre o poeta Allen Ginsberg –, Ira Sachs compõe uma cativante atmosfera visual potenciada pela matéria-prima analógica em que as imagens foram captadas.

Desde os primeiros segundos, "Peter Hujar's Day" faz questão de nos esclarecer que é filmado em 16mm. Veja-se o plano inicial de Ben Whishaw num elevador, claquete de produção à vista, com o término da sua ascensão a marcar, igualmente, o fim do rolo de película; a montagem não esconde ligeiros vestígios de fita-cola pregada à película na transição entre cenas; há sobrexposição e subexposição de luz propositadas; e, em todo o filme, atua uma fugaz, mas constante presença de riscos e picotado.
No seio do que aparenta ser só um conjunto de recursos estílisticos visuais, "Peter Hujar's Day" é, na realidade, uma obra sobre a memória. Ou melhor, acerca do tecido frágil, artificial e por vezes danificado da memória, seja ela recente, ou longeva: tal qual uma porção de película fílmica.
Sem menorizar os predicados das palavras de Peter Hujar, estas características técnicas e analógicas assumem-se, portanto, ao serviço de um filme sintético em duração, mas quase progressista no modo como conjuga artifício cinematográfico e apontamento biográfico.
Sem surpresa (cá vai o desabafo), "Peter Hujar's Day" ainda não tem data de lançamento comercial no nosso país. Pois este é – mais um – título para ser visto no grande ecrã, e em cópia de projeção de 35mm (há provas de que as mesmas existem). Fica, com esta crítica técnica, lançado o desafio para os "suspeitos do costume".