Publicado em 10 Apr. 2026 às 08:52, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia)
Ao encerrar a trilogia autobiográfica, a cineasta catalã transcende o relato familiar para investigar o estigma e o silêncio. Através da odisseia de Marina, Simón constrói um mosaico em que a procura pelas raízes confronta o trauma de uma Espanha marcada pela sombra da toxicodependência e da SIDA.
Apesar de podermos olhar "Romaria", o mais recente filme de Carla Simón, como parte de uma trilogia autobiográfica composta também pelas suas anteriores longas-metragens, "Verão 1993" e "Alcarrás", é de notar neste trabalho da cineasta catalã um salto de consolidação autoral para além de uma evolução de estilo que o tornam uma obra que se sustenta a si mesma, sem menosprezo dos seus predecessores. De facto, Simón não abandona o tema familiar, fio condutor que percorre esta fase inicial da carreira da autora, mergulhando de novo na sua própria biografia, desta vez para lançar Marina, um alter ego, numa viagem de descoberta não só das raízes familiares paternas, como também da história dos próprios pais biológicos.
Marina acaba de cumprir os dezoito anos e, sob o pretexto de necessitar de um documento assinado para aceder a uma bolsa de estudo, viaja da Catalunha até Vigo para conhecer a família do pai biológico, falecido de SIDA quando Marina era criança após uma vida marcada pelo pequeno tráfico e pela dependência de drogas. Este passado conturbado do pai marca a entrada de Marina na família galega, cuja presença obriga necessariamente o entorno familiar a encarar um assunto que, como facilmente se intui, está longe de ser pacífico.
A partir desta premissa, Simón desenha uma hierarquia familiar, com dinâmicas próprias, que lhe permite construir um arquétipo de família espanhola muito representativo daquelas que, direta ou indiretamente, passaram pelo trauma das drogas e do surgimento do HIV - fenómenos particularmente incidentes no norte de Espanha nos anos 80 – e que lhe permite explorar o estigma associado à doença, que se traduz, entre outros pontos, no pacto de silêncio a que os avós parecem submeter toda a família quando o assunto é Fon, o pai de Marina.
Simón consegue fugir à ideia de filme clássico de entrada na maioridade, ou de simples viagem de auto-descoberta, conseguindo uma forma orgânica de usar estes elementos familiares para simular um tecido social que funciona tanto no tempo cronológico do filme como na época em que os pais de Marina eram vivos. Através dos relatos e interpretações dos tios e tias de Marina, conseguimos perceber o drama que a família viveu à época com a situação de Fon, como geriu os preconceitos e os constrangimentos associados, mas também vemos as cicatrizes que ficaram e como influenciam ainda as relações entre os diferentes elementos da família.
"Romaria" consegue viver facilmente nestas várias dimensões, não só na história pessoal de Marina e na busca existencial por conhecer os pais, mas também em como explora as diferenças de perspetiva entre os avós e tios relativamente à vida dos pais de Marina, destapando-se uma distância que é muito marcante na dinâmica familiar e reveladora de uma época – aquela em que os pais de Marina viveram - em que filhos e pais viviam vidas diferentes.
É em cima destas várias dimensões que Carla Simón avança a narrativa, sempre presa ao subconsciente de Marina e à sua inevitável urgência na construção de uma memória dos pais, memória essa que vai moldando através das interpretações que faz do diário da mãe e de relatos familiares, culminando num último ato do filme em que Simón quebra a continuidade e nos leva, num momento de transcendência, até aos pais de Marina tal como esta os idealizou.
"Romaria" sente-se confortável nestes caminhos, da memória construída a partir de fragmentos e de como essa construção pode ser uma ferramenta para chegar à própria identidade. Afinal, e tal como se questionava Marina, "ter o mesmo sangue faz-te da mesma família?".