Cartaz de cinema

O negócio entre a Disney e a FOX em 3 passos

Publicado em 15 Dez. 2017 às 15:00, por , em Notícias de cinema (Temas: Indústria cinematográfica)

O negócio entre a Disney e a FOX em 3 passos

Conheça melhor as razões, o que está em causa e o que pode acontecer no futuro após o acordo que retirou de jogo um dos históricos de Hollywood.

Não será o maior negócio de sempre entre gigantes da comunicação e entretenimento (o título vai para o desastroso acordo entre AOL e Time-Warner, em 2000), mas é, sem dúvida, um dos mais marcantes. Vai transformar a Disney numa potência dominante e, à primeira vista, eliminar um dos históricos de Hollywood.

Abaixo, examinamos o essencial do acordo Disney-Fox, as áreas de negócio envolvidas e lançamos um olhar sobre as consequências a curto e médio prazo.

O que comprou a Disney

  • A 20th Century Fox, o histórico produtor e distribuidor de cinema, um dos seis grandes estúdios norte-americanos (sendo os restantes a Disney, Warner Bros., Paramount, Sony Pictures e Universal).
  • A 20th Century Television, produtor e distribuidor de programas de televisão.
  • Nos Estados Unidos, os canais por cabo do grupo FX Networks (FX e FXX), os canais National Geographic (National Geographic Channel e NatGeo) e ainda 22 canais regionais de desporto.
  • O Fox Networks Group, que explora mais de 40 canais na Europa, América Latina, Ásia e África. Entre as marcas mais conhecidas incluem-se os canais Fox, Fox Life, Fox Crime, Fox Movies, National Geographic Channel, NatGeo Wild, Baby TV e os canais STAR na India. Opera também plataformas digitais como a Fox Play e a Nat Geo Play.
  • Uma participação de 39% no grupo Sky, do Reino Unido, com a possibilidade de atingir o controlo acionista com 61% do capital se as autoridades britânicas aceitarem a oferta de compra feita anteriormente pelo grupo de Rupert Murdoch.
  • Uma participação de 50% na produtora holandesa Endemol Shine Group, responsável por programas como "Master Chef", ou "Big Brother".

Porquê

Do lado da Disney, a razão principal prende-se com a necessidade de acumular conteúdos e recursos que lhes permitam aumentar a produção, tanto de filmes como de séries de TV. O maior receio não vem de Hollywood, mas de Silicon Valley e dos novos gigantes digitais como a Amazon, a Apple, ou a Netflix.

Como o novo acordo, a Disney ganha poder de fogo para prosseguir o plano de retirar todos os seus conteúdos do concorrente Netflix a partir de 2019 e de lançar um serviço de streaming próprio.

Quanto à família Murdoch, lançou um olhar desapaixonado em direção ao futuro e viu o seu antigo modelo de negócio em declínio, mas ainda com valor suficiente para efetuarem um acordo lucrativo.

Problemas com a lei

Talve seja bom ter em mente que o acordo Disney-Fox ainda não está concluído. Falta a aprovação pelas autoridades de supervisão da concorrência nos Estados Unidos que podem demorar 12 a 18 meses até emitir uma decisão.

Se o contrato não for assinado por interferência das autoridades federais, a Disney terá de pagar $2,5 mil milhões de dólares à 21st Century Fox. Caso algumas das partes venha a romper o acordo por qualquer outra razão, terá de desembolsar uma penalização de $1,52 mil milhões de dólares. Esta espécie de contrato promessa termina a 13 de dezembro de 2018, com a possibilidade de ser prolongado por um ano.  

Também é prudente lembrar que, em novembro, o Departamento de Justiça dos EUA bloqueou a proposta de fusão da AT&T (empresa de telecomunicações) com a Time Warner (dona da Warner Bros.). O negócio valia $85 mil milhões de dólares e foi suspenso por receios de que um só grupo pudesse controlar todo o processo, desde a produção e distribuição de conteúdos à sua venda ao consumidor final.

Foi este velho receio que levou ao fim do "studio system" de Hollywood em finais dos anos 40 do século XX, altura em que o Supremo Tribunal dos EUA decretou a separação compulsiva entre estúdios e salas de cinema.

Apesar da ameaça constante de um bloqueio legal, a venda de ativos entre a Disney e a Fox tem a seu favor o facto de ser uma integração horizontal entre empresas da mesma área de negócio que procuram aumentar a sua capacidade produtiva para enfrentarem novos concorrentes como a Netflix, ou a Amazon.

O futuro

Inevitavelmente, o acordo levará à extinção de algumas empresas bem conhecidas em detrimento de outras. A Disney poderá optar por dois caminhos: manter as marcas FOX nos mercados onde estas têm mais força e implantação, como é o caso da televisão na Ásia e América Latina, ou absorver todos os ativos debaixo de uma única bandeira, seja de forma abrupta, ou faseada. Quase certo é o triste cenário dos despedimentos coletivos e layoffs, à medida que forem identificadas as zonas redundantes.

Esta movimentação pode, também, levar a outras ofertas de aquisição e a novas fusões. A Sony Pictures, com problemas de gestão e falta de filmes de sucesso poderá ser uma das próximas vítimas.

Apesar do discurso do seu novo CEO Tony Vinciquerra, que fala das "oportunidades" geradas pela compra da 20th Century Fox, a Sony terá de mover-se rapidamente se não quiser assumir o papel de peça ainda mais secundária na nova paisagem de Hollywood. Faltam-lhe filmes, "franchises de sucesso" e tem uma quota de mercado de apenas 8,8% no mercado cinematográfico norte-americano. Em cima disso, foi assolada por fugas de informações e mudanças nos executivos no topo da organização.

É apenas um cenário possível e não significa que venha a acontecer desta forma. Certo é que a tendência de consolidação em Hollywood ganhou um novo balanço e muito pouco ficará como dantes.