Cartaz de cinema

Nome de Lillian Gish removido de sala em universidade norte-americana por participação em filme racista

Publicado em 29 Jun. 2019 às 13:10, por , em Notícias de cinema (Temas: Cinema Norte-Americano, Bastidores)

Nome de Lillian Gish removido de sala em universidade norte-americana por participação em filme racista

A atriz fez parte do elenco de "O Nascimento de Uma Nação", de D.W. Griffith, em 1915.

A universidade de Bowling Green State, no estado norte-americano do Ohio, tirou o nome da atriz Lillian Gish da sala de cinema daquele estabelecimento de ensino devido à participação da atriz no filme "O Nascimento de Uma Nação" (Birth of a Nation), de 1915.

No campus universitário desde 1976, a sala foi baptizada com os nomes da duas irmãs Gish, ambas nascidas no Ohio. Dorothy e Lillian contribuíram financeiramente para a universidade em várias ocasiões e doaram consideráveis quantidades de objetos e documentos pessoais.

O Dorothy and Lillian Gish Film Theater original foi demolido recentemente para outra parte da Bowling Green State onde surgiu uma sala de cinema renovada com a mais recente tecnologia. Foi nessa altura que dúvidas começaram a surgir sobre a designação do local, tanto por parte da associação de estudantes de ascendência africana, como dos orgãos sociais da universidade.

Um grupo de trabalho foi constituído para avaliar o impacto da presença dos nomes das irmãs Gish e estudar a hipótese da alteração. O relatório final, divulgado em abril, recomendou a mudança. A sala é agora conhecida como BGSU Film Theater.

"O Nascimento de Uma Nação", adaptado do romance "The Clansman: A Historical Romance of the Ku Klux Klan", de Thomas Dixon Jr. (político, advogado e feroz defensor da supremacia branca), é um caso complexo e um dos filmes mais controversos da história do cinema.

Se, por um lado, incorpora mais momentos marcantes no desenvolvimento da sétima arte do que qualquer outra obra (primeiro grande plano do cinema, as inovadoras transições entre cenas, a própria duração e âmbito do filme) por outro, fá-lo ao serviço de uma causa abominável, a partir de uma história de um racismo básico e revoltante que glorifica o Ku Klux Klan e a causa dos estados sulistas da Confederação.

O retrato dos africanos em "O Nascimento de Uma Nação" é tão odioso e chocante que só teria forte concorrência mais de duas décadas depois, nos infames filmes de propaganda antisemita encomendados por Joseph Goebbels, "Jud Süß" e "Der ewige Jude" (ambos de 1940) que, no entanto, se apresentam despojados de qualquer valor artístico, ou estético. O nível de amor e ódio por parte dos estudiosos do cinema em relação a um filme só encontra semelhança perante o trabalho de Leni Riefenstahl ao serviço do nacional-socialismo alemão, nos anos 30 e 40.

A maior reação à retirada do nome das irmãs Gish apareceu a 19 de junho, numa carta aberta de 50 elementos da indústria cinematográfica que pedem à universidade que recue na mudança de nome.

Assinam em conjunto atores e atrizes como James Earl Jones, Helen Mirren, Lauren Hutton, ou Malcolm McDowell; realizadores como Martin Scorsese, Bertrand Tavernier, Peter Bogdanovich, Joe Dante e Taylor Hackford (antigo presidente da Directors Guild of America); três antigos presidentes da Writers Guild of America; bem como críticos de cinema, produtores e representantes do mundo académico na área do cinema de prestigiadas universidades como Rutgers, Indiana, Michigan, Southern Illinois, Boston, San Francisco State, e a UCLA.

Os subscritores chamam a atenção para a importância das duas atrizes na história do cinema, sobretudo para a longa e relevante carreira de Lillian, com mais de 100 participações em filmes, a última das quais com 92 anos, em 1987, na longa-metragem "The Whales of August".

Diz a carta que a "...controvérsia diminui o grande legado que Gish nos deixou na sua extensa e variada carreira. Para uma universidade, desonrá-la destacando apenas um filme, por mais ofensivo que seja, é lamentável e injusto. Esta atitude faz dela um bode expiatório num debate político mais amplo. Uma universidade deve ser um bastião da liberdade de expressão. Este é um supremo 'momento pedagógico' se puder ser tratado com um sentido mais subtil da história".

A Bowling Green State University recusou alterar a sua decisão.