Cartaz de cinema

"O Síndrome do Vinagre" por Samuel Andrade
"Nolaniano" me confesso

Publicado em 19 Jun. 2026 às 08:25, por Samuel Andrade, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: Síndrome do Vinagre)

"Nolaniano" me confesso

Um elogio aos contínuos esforços de Christopher Nolan em pensar filmes para a sala de cinema.

A propósito de outras pesquisas, espreitei recentemente "The Cinema of Christopher Nolan: Imagining the Impossible", uma coletânea de ensaios dedicada ao realizador de "A Origem", "Oppenheimer" e do prestes a estrear "A Odisseia".

Entre análises a temas, tipologias de personagens e perceções críticas da obra do realizador anglo-americano, foi de pessoal interesse o ensaio "Cinefilia em grande escala: IMAX em "O Cavaleiro das Trevas" e "O Cavaleiro das Trevas Renasce" de Christopher Nolan". Assinado por Allison Whitney, o texto discorre sobre e exemplifica o uso da tecnologia IMAX naqueles dois filmes de Nolan.

Muito perto da sua conclusão, formula-se o conceito de uma cinefilia específica em torno da obra de Nolan, a qual envolve o espectador pelo uso de "tecnologias fílmicas intrinsecamente teatrais", e cujas distinções visuais e geométricas "são um lembrete do aparato técnico enquanto 'personagem' no seio da experiência narrativa cinematográfica".

Estas considerações representam muito do que, mensalmente, se explica neste espaço de opinião, isto é, as características técnicas da Sétima Arte como elementos primordiais de "leitura" e estima cinematográficas. E, goste-se muito, ou nada, dos seus filmes, facto é que, na última década e como poucos, Christopher Nolan tem sido personalidade fulcral no que se refere à preservação – ou perseverança – de métodos analógicos de produção criativa, com vista à sua apresentação na tela da sala de cinema.

Nesse sentido, a contabilidade dos méritos e das peculiaridades de Nolan é tão exaustiva como eloquente: foi premiado pela Federação Internacional de Arquivos Fílmicos; em 2014, e por sua decisão, a ante-estreia de "Interstellar" apenas em cópias de 35mm e 70mm quase abalou o sistema de exibição digital; é exigente patrocinador da projeção analógica, rubricando, inclusive, o prefácio de um livro dedicado a essa atividade; "Dunkirk" e "Oppenheimer" fizeram meio mundo discutir sobre formatos de imagem e projecionistas de 70mm; recuperou, em 2018, uma cópia em 70mm de "2001: Odisseia no Espaço"; e, no passado mês de maio, levou os jornalistas do programa "60 Minutos" a um laboratório analógico de revelação de filme em 70mm IMAX.

Formatos Christopher Nolan

Devo admitir que um filme de Christopher Nolan nem sempre é das melhores experiências ("Interstellar", que data de 2014, foi o último a gerar permanente entusiasmo): a cadência irregular e/ou ausência de lógica das suas narrativas não lineares, a presença constante das bandas sonoras, ou a excessiva profundidade de temas que só ganhariam com simplificação são, amiúde, causa de particular enfado.

Contudo, sem discussão, é por uma concretização técnica irrepreensível que volto sempre ao seu cinema. Para Nolan, filmar em película é capricho, mas também ferramenta para alcançar intenções visuais (mesmo com os seus défices, "Oppenheimer" é, nesse sentido, um ótimo exemplo de estudo), e uma garantia – como por aqui muito se aprecia – de qualidade no produto a projetar numa sala de cinema.

Subjetivamente falando, a "excelência" em especificações técnicas, maioritariamente analógicas, não torna um filme melhor em relação às obras que privilegiam encenação dramática, ou desenvolvimento de personagens através de uma câmara digital. Mas essas especificações (na esfera das propriedades da película, ou dos grandes formatos de rodagem), muito próprias de Christopher Nolan, assim como de outros autores queridos por público e indústria – Quentin Tarantino, Paul Thomas Anderson, Damien Chazelle, Wes Anderson... –, resultam no grande espetáculo de que o cinema nunca se deverá afastar.

Afinal, esta minha estranha forma de cinefilia, incapaz de ignorar a técnica e a tecnologia por trás de cada filme visionado, obsessiva na fruição da imagem analógica do Super 8 ao 70mm, poderá ter uma designação: "Nolaniano". Então, "Nolaniano" me confesso.