Cartaz de cinema

Netflix avança para compra histórica da Warner Bros. Discovery

Publicado em 6 Dec. 2025 às 11:19, por António Quintas, em Notícias de cinema (Temas: Indústria cinematográfica, Cinema Norte-Americano)

Netflix avança para compra histórica da Warner Bros. Discovery

O negócio que pode mudar o cinema e o streaming em todo o mundo vai enfrentar forte escrutínio político e regulatório.

A Netflix chegou a acordo para adquirir os estúdios de cinema e televisão da Warner Bros. Discovery, incluindo o serviço de streaming HBO Max, numa operação avaliada em cerca de 83 mil milhões de dólares, consolidando um novo gigante global do entretenimento. 

A transação em dinheiro e ações aprovada pelos conselhos de administração das duas empresas deve levar entre 12 a 18 meses a ser concluída. Antes, ocorrerá a saída dos ativos não incluídos na compra, nomeadamente os canais de televisão da Discovery. O negócio está também dependente da aprovação das autoridades que regulam a concorrência.

Se a aquisição for aprovada, a Netflix passa a controlar o vasto catálogo da Warner Bros., que abrange clássicos como "Casablanca" e "Citizen Kane" e marcas como "Harry Potter", "Batman" ou "Friends", reforçando o seu portefólio que inclui títulos como "Stranger Things" e "Squid Game". 

Especialistas sublinham que o negócio transforma a empresa no ator central do panorama audiovisual norte-americano ao combinar o maior serviço de streaming com a programação de qualidade da HBO e uma biblioteca de milhares de filmes e séries, redesenhando o equilíbrio de forças num setor já marcado por forte concentração.

Também a Paramount Skydance e a Comcast estiveram na corrida pela Warner Bros. Discovery, mas perderam para a proposta mais elevada da Netflix, que ofereceu um prémio significativo face ao valor bolsista da WBD e aceitou pagar um recorde de 5,8 mil milhões de dólares caso o negócio seja bloqueado. 

Analistas, setores políticos, e associações profissionais dos EUA, defendem que a operação deve ser escrutinada com rigor, argumentando que poderá reforçar excessivamente o poder da Netflix no mercado de conteúdos, ainda que a empresa invoque a concorrência de plataformas como YouTube e TikTok para afastar o risco de monopólio.

Para a União Internacional de Cinemas, que representa exibidores em 39 países europeus, a integração da Warner Bros. numa empresa centrada no streaming aumenta a probabilidade de diminuição do número de títulos reservados à estreia em sala e o encurtamento ainda mais drástico das janelas de exibição, o que ameaça diretamente as receitas das salas. A organização alerta para um "impacto profundamente danoso" na paisagem cultural europeia, com encerramentos, perda de empregos e menor diversidade de oferta, e promete pressionar as autoridades nacionais e europeias a avaliarem o negócio à luz destes riscos.

O negócio entre a Netflix e a Warner Bros. segue a tendência de consolidação e mudança no panorama, dominado durante décadas pelas chamadas "majors", os estúdios fundadores da Hollywood clássica que caracterizou o cinema na América do Norte no século XX. Após o desaparecimento da RKO e a saída de cena da MGM como grande estúdio, o legado foi mantido pela 20th Century Fox, Columbia, Disney, Paramount, Universal e Warner Bros. que, no pós-guerra, foram progressivamente absorvidas por grandes corporações. 

A mais recente vaga de reestruturações reduziu o número de nomes históricos: em 2019, a Disney comprou a Fox, por 71 mil milhões de dólares; em março de 2022, a Amazon comprou a MGM por 8,5 mil milhões de dólares e, finalmente, em agosto de 2025, a Skydance absorveu a Paramount por 8 mil milhões de dólares.

Entre todas as reações ao acordo Netflix/WBD, a mais interessante e rebuscada será a do especialista em questões ligadas a concentração empresarial e monopólios Matt Stoller. Em entrevista ao site norte-americano The Ankler, Stoller qualifica a oferta da Netflix como "louca" e "obviamente ilegal". Segundo o especialista, o negócio não foi criado para ter sucesso. Ele acredita que a intenção da Netflix é paralizar o seu principal concorrente durante dois anos, enquanto os reguladores analisam o negócio. Desta forma, a Netflix enfraquece a posição da Warner Bros. no mercado, permitindo-lhe consolidar-se ainda mais como líder.⁠