Publicado em 27 Sep. 2025 às 10:46, por Samuel Andrade, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: Síndrome do Vinagre)
Algumas utopias sobre cinema em sala, tecnologia e cinefilia.
Pintemos o negro cenário: a afluência às salas de cinema é cada vez menor tal como o número de ecrãs. Cinéfilos famosos como Martin Scorsese, ou Quentin Tarantino, confessaram o seu pessimismo.
O "escurinho no cinema" que a Rita Lee cantava está ameaçado por sistemas de projeção que clareiam absolutamente tudo na sala como o moderno ScreenX, que promove o esquema, em simultâneo, de três projeções digitais em três ecrãs diferentes, numa "imersão" que privilegia luz e cor em prejuízo do detalhe narrativo e de imagem, ou por experiências que nem sequer podem ser consideradas projeção (o que o Sphere in Las Vegas fez com "O Feiticeiro de Oz" é exemplo disso).
Junte-se a isto as já ínfimas diferenças entre a imagem digital na tela e a dos televisores 4K UHD das vossas salas de estar – e das vossas contas nas plataformas de streaming...
Em resumo, falar de experiência na sala de cinema, hoje, é descrever algo à parte da noção com que tanto nós, como as gerações antecedentes, cresceram e viveram. Face ao progresso tecnológico que se avizinha, essa diluição só terá tendência a acentuar-se.
Como acréscimo desta ideia cito Luís Miguel Oliveira, crítico e programador de cinema: "À medida que se quebre o laço com o século XX, o cinema que guardou a imagem dele, e que se fez da imagem dele, tornar-se-á progressivamente incompreensível, uma coisa bizantina".
Este lamento de obstinado, anacrónico e inglório conservadorismo, não é mais do que um apelo à preservação do fator que concede ao cinema aquilo que define o próprio Cinema. Não se invoca um "cinema elevado", nem a obrigatoriedade de esta ser uma arte imutável nos preceitos da sua apresentação pública; o que se reivindica é que a Sétima Arte continue a ter sede própria onde usufrua da sua qualidade de ser cinema.
Se a ópera e o teatro, continuam a exigir um palco e se a obra plástica dos mestres requer as divisões de um museu de arte, não há argumentos para que o cinema – e, sobretudo, o espectador – não preserve a sala como o "habitat natural" das imagens em movimento.
A tecnologia digital aplicada ao cinema, é um facto, reduziu custos de distribuição e democratizou a produção cinematográfica, mas revelou-se, em todos os ímpetos capitalistas desse processo, a machadada quase final para a experiência que aqui se defende.
No admirável mundo novo do digital, florescem os streamings e a pirataria; a qualidade de imagem dos projetores, subitamente, está a empalidecer face ao melhor home cinema que o consumidor possa adquirir; a presença humana nas cabines foi substituída por servidores, matrizes HDMI e automatismos informáticos; e a prioridade nos multiplexes é ter gente na bilheteira e no bar em detrimento da supervisão do que está a ser mostrado no grande ecrã.

Em 2025 chega o momento de dizer que a sala de cinema deve proporcionar uma experiência que nunca haverá em casa. Recentemente, o sucesso financeiro das sessões de "Oppenheimer" em película de 70mm, a peculiar exibição duma cópia analógica de época - e "não restaurada" - de "2001: Odisseia no Espaço" como evento, ou o reavivar e o entusiasmo público de suportes analógicos supostamente obsoletos como o Vistavision, é fenómeno que não surpreende: talvez inconscientemente, muitos já perceberam que a lógica de standardização, na exibição cinematográfica, não é sinónimo de qualidade.
Apelemos, então, à "revolução": o cinema em analógico será uma salvação do próprio cinema. Através de fatores, dos existentes aos ideais, da sua produção e comercialização, só ganharíamos em curadoria, qualidade e diversidade dos filmes apresentados nestes suportes.
Cumpra-se, assim, o manifesto pela salvação da sala de cinema: