Publicado em 28 Jun. 2026 às 11:53, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia)
A eslovena Urška Djukić constrói um retrato delicado e rigoroso sobre o despertar emocional e sexual de uma adolescente num retiro religioso.
"Já sei o que vais dizer", gracejava Vladimir Gojun, montador de "Little Trouble Girls", quando, após uma referência em conversa à América do Sul acrescentei que, ao ver esta primeira longa da eslovena Urška Djukić, me tinha aflorado à mente um determinado filme sul-americano. Nada a apontar à justeza do gracejo, já que a comparação com "A Rapariga Santa" de Lucrecia Martel está capacitada de alguma obviedade boçal. Não deixa, no entanto, de haver um paralelismo evidente entre as protagonistas de "Little Trouble Girls" e do filme de Martel, já que ambas partem de um lugar de despertar emocional, em particular de relação com a sexualidade.
"Little Trouble Girls" segue Lucija, uma jovem de 16 anos que parte com o coro feminino ao qual pertence para um retiro num convento, onde experimenta o desejo como novidade. A partir deste despertar, vai-nos sendo revelada a complexidade do íntimo de Lucija através do confronto, seja pela relação com Ana-Maria, uma colega de coro que aparenta maior extroversão e um nível de maturidade que sugere que já superou a mesma fase em que Lucija se encontra, mas também pelo conflito interno entre os sentimentos que Lucija experimenta pela primeira vez e os seus próprios fundamentos de moralidade. Na verdade, mais que uma duplicidade de conflitos, a presença de Ana-Maria, é um factor que estimula em Lucija inquietudes, ou curiosidades, com as quais ela própria já se debatia.

Entra aqui o trabalho de autora de Djukić, que nos conduz pelos estados de alma de Lucija com delicadeza de artesã, valorizando o implícito sobre o explicativo, sobrepondo a sugestão do rosto e gestos à verbalização. Este rosto, o de Jara Sofija Ostan, é sublimemente capturado por Urška Djukić, em todas as suas manifestações emocionais, do receio à ingénua curiosidade, mostrando uma capacidade metamórfica que não será alheia, apoiando-nos de novo nas palavras de Vladimir Gojun, ao facto de Ostan estar a ter a sua primeira experiência em cinema e que se encontra, tal como Lucija, a experimentar a novidade, ainda que em diferentes dimensões.
Sobre esta tapeçaria de desconcerto emocional em Lucija, paira também o subtexto religioso, que Djukić utiliza com explicitude variável, mas sempre presente no seu propósito de recordar Lucija de que o que sente está na fronteira do pecado. Uma ideia de pecado que não se esgota no seu sentido religioso, mas também na ideia de conformidade, ou da imposição de conformidade, simbolismos que Djukić explora através do coro, personificado, em particular, pelo seu diretor e pela obsessão em manter a harmonia como contraponto a qualquer manifestação de individualidade. Todos estes pontos acrescentam ao tumulto de Lucija, que se encontra visivelmente desarmada de ferramentas que a permitam superar estes elementos de opressão exógenos ou autoimpostos.
Embora seja a primeira longa-metragem da autora eslovena, nota-se em "Little Trouble Girls", uma ideia vincada de linguagem cinematográfica que Urška Djukić desenha para construir o suficiente para que entendamos Lucija sem, no entanto, nos preencher todos os espaços.
Confessava Vladimir Gojun, que havia muito material filmado sobre o passado de Lucija, em particular na sua relação com a mãe, e que foi abandonado por se achar desnecessário para a compreensão da personagem e para a história que se queria contar. De facto, Djukić foge desse determinismo e procura que "Little Trouble Girls" seja fiel à agitação que intuímos em Lucija - com tudo o que tal agitação tem de insondável - permitindo que o seu filme ganhe força precisamente pelo que não nos mostra.