Publicado em 26 Jun. 2026 às 09:19, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia)
O novo documentário do realizador André Guiomar, "Ku Handza", estreia esta semana nas salas de cinema portuguesas para oferecer um retrato da subsistência em Moçambique que explora as estratégias de três famílias perante a adversidade social e política do país.
Dizia o realizador André Guiomar, em discurso direto sobre Benjamim, uma das pessoas cuja história acompanhamos em "Ku Handza" - o seu mais recente documentário pensado e executado após um longo período de residência do autor em Moçambique - que havia no retrato quotidiano daquela personagem qualidades próprias de Sísifo, o monarca corintiano condenado por Zeus a empurrar a mesma pedra até ao cimo do monte por toda a eternidade.
Tal alegoria poder-se-ia, com alguma latitude, aplicar também a Eulália e Filimone, protagonistas das outras duas histórias que "Ku Handza" nos apresenta, mas é particularmente certeira quando associada a Benjamim, que acompanhamos na demanda por juntar o possível para organizar uma festa de aniversário para o filho através do ofício informal de trocas cambiais entre moeda moçambicana e sul-africana.
Na história de Benjamim está o paradigma de "Ku Handza" enquanto expressão coloquial da língua changana - que numa tradução livre poderíamos interpretar como "esgaravatar" – para simbolizar a luta diária pela subsistência, luta essa que se faz contra elementos que estão para lá do controlo dos retratados, ainda que o impacto que sentem lhes seja bastante direto.
Em Benjamim sentimos o cansaço de quem se reinventa todos os dias apenas para se manter à tona de água. Já em Filimone, militar destacado para o conflito em curso na região de Cabo Delgado, essa resignação ascende a uma dimensão existencial e o protagonista toma para si a personificação de um fatalismo próprio de um país que vive com as marcas de guerra no seu presente e passado recente.
O contraponto emocional do documentário é dado por Eulália, cuidadora nata, cuja abordagem perante a adversidade destoa por completo das restantes personagens que acompanhamos. A resignação em Eulália manifesta-se através da entrega ao tempo presente, da alegria em manter e fazer crescer a família e pelo compromisso militante que assume em cuidar os demais. A nossa história com Eulália começa com a descrição do seu mais recente parto, o sexto, e evolui daí até ao regresso ao trabalho, onde se dedica a cozinhar para as multidões que procuram subsistência no aterro sanitário.
Embora aparentemente dispersas, estas histórias formam um mosaico fragmentado que permite um vislumbre sobre diferentes dimensões da situação social e política de Moçambique contemporâneo, entroncando a realidade dos três protagonistas não só na ideia lata de sobrevivência, mas também na urgência associada a essa sobrevivência quotidiana e como tal urgência lhes tolhe uma possibilidade de perspetivar o futuro.
Se em Eulália a militância pelo presente atenua esse efeito e em Filimone a afinidade pelo trágico não lhe permite pensar num país para lá da guerra, Benjamim, em todo o seu esplendor taciturno, contém um vislumbre de futuro, ou pelo menos a projeção de que tanto esgaravatar tem de servir para que um dia se permita a sonhar. Talvez em Benjamim, por paradoxal que pareça, a angústia se alimente da esperança de que um dia a pedra rolará para lá do cume.
"Ku Handza" estreia esta semana nas salas de cinema.