Cartaz de cinema

"O Espírito da Colmeia" por Pedro Sesinando
"Kontinental '25": a dormência contemporânea segundo Radu Jude

Publicado em 8 Jan. 2026 às 08:42, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia)

"Kontinental '25": a dormência contemporânea segundo Radu Jude

Partindo do legado de "Europa '51", de Roberto Rossellini, o cineasta romeno compõe uma alegoria mordaz sobre a alienação social e o colapso da solidariedade. Através do percurso de uma agente de execução confrontada com a tragédia, Jude disseca as mecânicas da sociedade atual que transformou a indignação num resíduo obsoleto.

Em 1952, já depois de ter realizado os filmes que compuseram a trilogia dedicada à Segunda Guerra Mundial, Roberto Rossellini realizou "Europa '51", protagonizado por Ingrid Bergman, em que a atriz sueca dá corpo a uma figura da burguesia industrial da Roma do pós-Guerra que, após a trágica morte do filho, se dedica fervorosamente a causas humanitárias e de caridade social. 

Estreado no festival de Veneza, "Europa '51" gerou controvérsia, pelo carácter político que apresentava e pela crítica subjacente a uma burguesia bem instalada, desligada dos problemas que as classes trabalhadoras enfrentavam, tendo ainda recebido, da parte de algumas franjas mais conservadoras da classe política italiana, acusações de anticlericalismo pela forma como ignorava o papel caritativo da Igreja Católica. 

Mais de setenta anos depois, embora num tom bem menos dramático, o cineasta romeno Radu Jude pede emprestada a ideia a Rossellini para desenhar "Kontinental '25", uma alegoria (mais uma do autor romeno) dos tempos correntes em que Jude volta a fazer uso da mordacidade cómica e do absurdo que já explorara, por exemplo, no genial "Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo", filme de 2024.

"Kontinental '25" acompanha Orsolya, agente de execução numa cidade da Transilvânia - Cluj-Napoca – que, durante uma ação de despejo por ela gerida, é confrontada com o suicídio da pessoa vítima de despejo. É esta tragédia que põe o filme em movimento, centrando-se no transtorno de Orsolya e na forma como lida com a responsabilidade a que se atribui e com a empatia que devota à vítima. 

Para explorar esta gestão de culpa, Jude faz desfilar uma série de personagens a quem Orsolya recorre para, mais do que conforto, encontrar solidariedade perante a sua situação e a da vítima. Invariavelmente, resultam em diálogos que denunciam uma alienação social perante a tragédia, ou pelo menos, denunciam a ausência de ferramentas de que padecemos, enquanto comunidade, quando confrontados com situações que nos parecem manifestamente injustas. 

É verdade que, para colocar o espectador diante desta situação potencialmente desconfortável, Jude constrói os diálogos com total ausência de dramatismo, recorrendo ao absurdo de uma forma muito particular, conseguindo ridicularizar a realidade sem precisar de a hiperbolizar, característica que faz de Radu Jude um cineasta singular e, atualmente, o mais capaz de captar o zeitgeist das mecânicas sociais do nosso universo geográfico. 

Os interlocutores de Orsolya - uma amiga, a mãe nacionalista húngara e até um padre ortodoxo – não perdem tempo nas fases do luto que a protagonista atravessa, procurando queimar as etapas suficientes para que Orsolya encontre uma expiação que nem parece procurar tanto quanto procura alguém que se solidarize com a sua revolta e manifeste humanidade por uma pessoa que morreu para não ser posta na rua e que não teve sequer quem assistisse ao seu funeral. 

Resta-lhe recorrer a um excêntrico ex-aluno, agora a trabalhar como estafeta, personagem que Jude constrói para funcionar como arquétipo de um recém-adulto dos nossos tempos: precário, sem acesso à habitação nem a um trabalho condizente com as suas habilitações, ainda que habite numa cidade que anuncia start-ups fervorosamente.

"Kontinental '25" explora a ideia de uma sociedade num estádio avançado de consumo capitalista, que perdeu a capacidade de indignação e em que a solução para o trauma é regressar o mais rapidamente possível à letargia inicial. Essa ausência de reação alimenta a frustração de Orsolya, uma figura quixotesca rodeada de gente que aceita violências como uma ação de despejo como uma inevitabilidade dogmática, cujo desconforto causado pode ser resolvido com donativos a organizações de caridade. 

Em 1952, "Europa '51" causou tumulto suficiente para que Rossellini se visse obrigado a cortar algumas cenas - sobre "Kontinental '25", e aí jaz a tragédia, tudo indica que estamos demasiado dormentes para que se lhe augure o merecido impacto.