Publicado em 2 Dec. 2025 às 20:42, por filmSPOT, em Notícias de cinema (Temas: Bastidores)
O cineasta está nos Estados Unidos a promover o filme "Foi Só Um Acidente".
O realizador iraniano Jafar Panahi, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, foi condenado à revelia a um ano de prisão por um tribunal revolucionário em Teerão, que lhe impôs ainda a proibição de viajar e de participar em organizações políticas e sociais. A decisão surge numa altura em que o cineasta se encontra fora do Irão, a promover o seu mais recente filme, "Foi Só Um Acidente", atualmente em campanha para prémios internacionais.
Segundo o advogado Mostafa Nili, a 26.ª secção do Tribunal Revolucionário de Teerão determinou uma pena de um ano de prisão, acompanhada de uma proibição de viajar durante dois anos e de integrar qualquer grupo político ou social. A acusação baseia-se em alegadas "actividades de propaganda" contra o Estado iraniano, sem que tenham sido divulgados pormenores sobre os factos concretos imputados ao cineasta.
Nili adiantou que a defesa irá contestar o acórdão pelos meios legais disponíveis, sublinhando que a decisão foi tomada na ausência do realizador, que não se encontra actualmente no país.
Organizações de direitos humanos e observadores internacionais têm criticado a utilização recorrente deste tipo de acusações para silenciar vozes críticas no sector cultural iraniano.
Jafar Panahi, de 65 anos, está a residir em França ao abrigo de um visto especial e tem viajado para promover o lançamento internacional de "Foi Só Um Acidente", obra rodada clandestinamente no Irão. O filme conquistou a Palma de Ouro em Cannes e foi selecionado por França como a sua proposta à categoria de melhor longa-metragem internacional nos Óscares de 2026.
O realizador, que passou por Portugal há poucas semanas, está agora nos Estados Unidos e ontem esteve presente na cerimónia de entrega dos Gotham Awards destinados ao cinema independente e de autor.
A nova condenação levanta dúvidas sobre a possibilidade de Panahi regressar em segurança ao Irão, dado o risco de detenção caso entre no país.
Panahi é há anos um dos alvos mais visíveis da repressão cultural da República Islâmica, acumulando detenções, períodos de prisão e interdições profissionais. Em 2010, foi sentenciado a seis anos de prisão e a uma proibição de 20 anos de filmar e viajar, na sequência da sua participação em eventos ligados ao movimento de contestação conhecido como Revolução Verde.
Em 2022, o cineasta voltou a ser detido após se dirigir às autoridades para obter informações sobre dois colegas igualmente presos, tendo cumprido cerca de sete meses na prisão de Evin, em Teerão, até ser libertado em 2023 após uma curta greve de fome. Apesar das restrições formais, continuou a trabalhar, realizando filmes sem autorização oficial, que circularam em festivais internacionais e consolidaram o seu estatuto de figura central do cinema de autor contemporâneo.
A nova sentença contra Jafar Panahi é vista por analistas e ativistas como um sinal de endurecimento da postura do regime face a artistas com projeção internacional, mesmo quando se encontram fora do país. Para o meio cinematográfico iraniano, o caso reforça o clima de incerteza e risco para realizadores que abordam temas políticos ou sociais sensíveis, muitas vezes recorrendo a produções clandestinas.
A defesa prepara agora o recurso, mas não está claro em que medida a pressão externa poderá influenciar o desfecho judicial dentro do sistema iraniano.