Cartaz de cinema

IndieLisboa 2026: "Phantoms of July" - a inquietação e o marasmo

Publicado em 6 May. 2026 às 17:45, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia, Festivais de cinema, Cinema Europeu)

IndieLisboa 2026: "Phantoms of July" - a inquietação e o marasmo

Sob a aparência de uma comédia bucólica, Julian Radlmaier esconde uma reflexão sobre a insatisfação humana. Ao cruzar os destinos de uma habitante local e de uma refugiada iraniana na paisagem mineira de Sangerhausen, o realizador coreografa um diálogo entre o marasmo contemporâneo e as feridas históricas da Alemanha.

Exibido na secção Silvestre do IndieLisboa 2026, "Phantoms of July" é uma aventura romântica sobre uma amizade improvável.

Entre outros méritos atribuíveis ao mais recente filme do realizador alemão Julian Radlmaier, destaca-se a capacidade de manter intacto um tom aparentemente inofensivo, sempre mais próximo da comédia que da comédia dramática, e ainda assim conseguir chegar a assuntos complexos com a seriedade que pedem. 

A ação de "Phantoms of July" – tradução algo simplista do original em alemão que se deveria ler como algo mais adequado como "Yearning in Sangerhausen" – passa-se numa pequena aldeia da Alemanha oriental, Sangerhausen precisamente, que assenta a pequena economia local no turismo de caminhantes atraídos pela colina em forma de pirâmide que domina sobre a aldeia e que foi formada artificialmente no tempo em que esta era uma terra de exploração mineira. Aqui vivem Ursula, cuja família habita a aldeia há várias gerações, e Neda, refugiada iraniana que aspira a vingar como youtuber de viagens. 

Que de contextos tão diferentes possam surgir estados de espírito e frustrações semelhantes será um motivo já bastante explorado em cinema, ainda assim, Radlmaier consegue abordar o tema de forma não só a manter a universalidade do sentimento, explorando o marasmo em que Neda e Ursula se encontram e fazendo-o de forma facilmente relacionável para qualquer auditório, mas também ao conseguir introduzir um certo ar dos tempos do panorama político e social da Alemanha atual, facilmente extrapolável para outros contextos geográficos, fazendo desfilar casualmente por entre os afazeres das protagonistas, personagens com observações ora insinuantes, ora abertamente racistas. 

Apesar de assumir este subtexto, na verdade, bastante explícito, o filme nunca deixa de lado o efeito pitoresco que a aldeia entrega, sentindo-se confortável nessa dualidade entre a caricatura bucólica da aldeia e a rudeza de alguns dos seus habitantes. De facto, estas manifestações, embora desagradáveis, nunca dão real sensação de confronto ou agressividade. 

Acima de tudo, o cineasta não perde o fio relativamente às suas personagens, cuja aspiração a outra vida, com tudo o que isso significa para o seu estado emocional, paira implicitamente sobre todo o filme e é o que vai marcar a relação entre ambas. 

Para o epílogo, Radlmaier transcende o naturalismo que marcava o filme para um registo absurdista - mas não absurdo - recuperando a personagem de Lotte, antepassada de Ursula, na simpática figura de um fantasma. Lotte, que nos tinha sido apresentada no primeiro ato do filme como uma serva executada por ambicionar a fuga para uma França que nascia do rescaldo da revolução, permite a Radlmaier encerrar o círculo, talvez de forma demasiado óbvia, ao paralelizar as situações de Ursula e Lotte para aferir da intemporalidade da inquietação no ser humano como consequência do desejo persistente.