Cartaz de cinema

IndieLisboa 2026: A anatomia do remorso em "Blue Heron"

Publicado em 13 May. 2026 às 18:04, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: Festivais de cinema)

IndieLisboa 2026: A anatomia do remorso em "Blue Heron"

Sophy Romvari estreia-se na longa-metragem com um exercício autobiográfico. Através do olhar de uma irmã que se torna observadora do trauma familiar, o filme disseca os sentimentos de culpa e a evolução da consciência perante a doença mental.

Entre as questões que me assaltaram enquanto digeria "Blue Heron", a primeira longa-metragem da cineasta canadiana Sophy Romvari, foi ganhando espaço a ideia da persistência do remorso e de como as suas metamorfoses estão relacionadas com as próprias metamorfoses do passado, isto é, as diferentes formas que o passado assume ao ser construído pela subjetividade da memória. 

Não que Romvari sugira de alguma forma que o que nos é mostrado em "Blue Heron" seja uma fantasia e não um relato fiel do que foi experimentado pela família, mas no sentido em que o remorso em Sasha, a irmã mais nova e observadora primária, parte de um trauma familiar e evolui para diferentes dimensões à medida que se vai levantando o véu relativamente às memórias que estão a ser contadas. 

Tal como Carla Simón no recente "Romaria", também Sophy Romvari assume uma componente autobiográfica para construir "Blue Heron" ao apresentar Sasha como alter ego numa família em que, para além dos pais, se contam os irmãos gémeos e o irmão adolescente Jeremy, cujo comportamento errático e desarrumado domina as dinâmicas familiares, resultando num crescendo de frustração nos pais que se encontram sem ferramentas para lidar com a situação. Aliás, é através do retrato desta incapacidade parental, que Romvari se permite dar um contexto social ao período em que se passa o primeiro ato do filme - os anos 90 -, em particular na relação com a saúde mental em que, mesmo numa sociedade que se imaginaria progressista como a canadiana, se vivia ainda de suposições experimentais e improvisos sobre como abordar estas questões.

No entanto, é, fundamentalmente, pelos olhos de Sasha que vamos aprendendo sobre Jeremy, uma figura que cedo adivinhamos espectral e cuja presença, mesmo que silenciosa, contamina todo o ambiente familiar, alternando entre momentos de total hostilidade com genuínas manifestações de afeto. 

A evolução do estado de consciência de Sasha, que aos poucos vai alterando a sua perceção sobre a singularidade do próprio contexto familiar bem como do comportamento do irmão, permite que o filme avance, apoiando-se nesse crescimento psicológico da personagem para mostrar a família como um organismo em que todos os elementos são inevitavelmente afetados quando um está vulnerável. 

O filme caminha então para um segundo ato, após um salto temporal, em que Sasha é já adulta e está numa fase de pesquisa para um filme sobre o caso do irmão. Não será fruto do acaso que na primeira cena deste segundo ato, Sasha se reúna com uma equipa de assistentes sociais a quem pediu para analisar o caso de Jeremy e da sua família. Esta ideia de Sasha regressar ao passado e olhar para a situação que viveu na infância, embora desta vez com as ferramentas do presente, faz-nos voltar com mais força ao conceito do remorso como um dos subtextos de "Blue Heron". 

Sasha procura agora, num tempo onde as questões de saúde mental são tratadas com abordagem científica, respostas que os pais não conseguiram obter e que os fez viver desarmados perante a doença que acabaria por lhes levar o filho. 

O remorso nos pais não nos é mostrado, apenas intuído, mas o de Sasha está presente em mais que uma dimensão, como prova o epílogo em que a autora quebra o contínuo temporal e fantasia sobre uma Sasha adulta a explicar aos pais, cristalizados no tempo em que Jeremy ainda vivia, o que não teve como explicar quando era criança. 

Romvari usa o artifício comum de resgatar o passado para procurar a redenção em Sasha - não só pelo irmão que não conseguiu salvar, mas também por não ter evitado o sofrimento dos pais. Sofrimento que - e essa é uma das aprendizagens de Sasha –, tragicamente, era inevitável.