Publicado em 2 Jul. 2026 às 15:56, por Samuel Andrade, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: Síndrome do Vinagre, Festivais de cinema)
Cinco dias no paraíso dos cinéfilos, ou mais um breve ponto de situação sobre o passado, presente e futuro de uma arte.
O olhar imponente da atriz Barbara Stanwyck estampado no cartaz do festival visível um pouco por toda a cidade foi a imagem de marca da 40.ª edição do Il Cinema Ritrovato. Mas o semblante de Stanwyck, a determinado momento e para este observador, também mereceria o adjetivo cético, especialmente face à reflexão (e às conclusões) sobre o que é, nos dias que correm, "ritrovar" – ou reencontrar – cinema.
A designação "restauro digital" dominou, com raríssimas exceções, o certame de uma ponta à outra. Nessa inevitabilidade, o sentimento este ano é de que o Il Cinema Ritrovato transformou-se, quase em definitivo, numa montra de digitalizações e aprimoramento de filmes clássicos – cada vez mais sem o contexto aprofundado do que, efetivamente, se desenvolveu nesses trabalhos.
Na disponibilidade e quantidade de títulos em suporte digital – por via da secção "Recovered and Restored", houve do reputado ao totalmente obscuro – ótima notícia tanto para novas gerações de comprometidos cinéfilos, como para o fenómeno da cinefilia Letterboxd, ávida de registar filmes, qual caderneta de cromos do Mundial de futebol, numa rede social.
Continua a mostra de obras cinematográficas de diversas latitudes, com muitas sessões próximas da lotação esgotada, o silêncio e o decoro quase sepulcral na sala de cinema. Não obstante (como já se deve perceber) algum agridoce nesta edição do Il Cinema Ritrovato, o evento não desilude quando se redescobrem formas, comportamentos e manifestações ancestrais de apresentar Sétima Arte.
Nesse sentido, as projeções ao ar livre, a arco de carbono, continuam a ser das minhas experiências prediletas do festival (obrigado Stefano Bognar!, projecionista em Bolonha, pela explicação técnica da majestosa Prevost Magnus).

Ainda no espetro do analógico, o facto de o director's cut de "The Devils" (1970, Ken Russell) – retalhado e mutilado pela censura religiosa de vários países, na época de estreia – ter sido exibido numa nova cópia em 35mm originou a impressão de ver o filme pela primeira vez.
No 40.º Il Cinema Ritrovato, existiram várias oportunidades de observar cinema em película, nomeadamente, nas retrospetivas a Mitchell Leisen e Daisuke Ito. Contudo, optei por não lhes dar extensa agenda (sem remorsos; por opiniões alheias que ouvi, o cineasta nipónico não foi particularmente entusiasmante).
Em alternativa, debrucei-me sobre as sessões do programa "Century of Cinema: 1906" e, aqui, também se viu do melhor do festival. E não só por serem maioritariamente exibidas imaculadas cópias de arquivo em 16mm e 35mm; foi uma oportunidade de aferir que, há 120 anos, a humanidade dedicada aos primeiros passos do cinema nutria (ou aos meus olhos modernos assim pareceu) um sofisticado sentido de humor negro relativamente a violência doméstica, homicídio, suicídio, estereótipos raciais, infanticídio, misoginia, ou alcoolismo.
Mas regressemos, então, ao conceito de "cinema redescoberto" que se sentiu menor. Este ano, multiplicaram-se sessões com projeções digitais 4K de F. W. Murnau, Roger Corman, Fritz Lang, Agnès Varda, Orson Welles, Jim Jarmusch, Bernardo Bertolucci, Monty Python, Luchino Visconti... Ou seja, nenhum título propriamente inalcançável, nem apresentado em versões diferentes das que conhecemos.

A ocasional ressalva a este estado de coisas (por exemplo, a montagem definitiva de "Manhunter", de Michael Mann, que muito apreciei) não esconde como a programação descura, progressivamente, pormenores do trabalho de arquivo subjacente a todos estes restauros: um intertítulo no princípio do filme resolveu, na maioria dos casos, o assunto.
E quando os arquivos são realçados, nasce aparente e imediata polémica. Durante o certame, foi anunciado um projeto de reconstrução de "Don Quixote", filme inacabado de Orson Welles, no qual o cineasta trabalhou durante três décadas. Recorrendo a materiais (negativos, o argumento original, documentos de planificação) oriundos de quatro cinematecas europeias, a intenção liderada pelo historiador Esteve Riambau de finalizar um título que nunca teve forma concreta será, certamente, tema de discussão. Por acaso, tal muito me regozija; talvez um dia, neste espaço, se volte a falar do "Don Quixote" de Welles.
Apesar de tudo, o Il Cinema Ritrovato continua a ser "o paraíso dos cinéfilos". Mesmo com altos e baixos, a melancolia pós-Bolonha instala-se sempre, indiscutível, no momento do regresso de uma cidade onde se vivencia cinema por meios inusitados: fruto de uma frincha nos estores, podia vislumbrar no teto do meu quarto, todas as manhãs, a rua circundante através de um efeito de camera obscura – princípio fundamental de fotografia e cinema.
Deveras, "cinema ritrovato" onde menos se espera.