Publicado em 29 Sep. 2026 às 09:10, por Samuel Andrade, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: Síndrome do Vinagre)
Desde quando se tornou tão complicado ver um filme? Como podemos simplificar a escolha do formato do ecrã de sala de cinema?
Salas IMAX, XVision, 4DX, Dolby Atmos, em 2D, ou 3D... Quase sem dar por isso, ir ao cinema tornou-se, nos dias que correm, em sinónimo de não só escolher lugar numa sala, como também de exercer opção sobre o melhor formato para determinado filme.
Em parte, o sucesso – e frenesim mediático –, no passado mês de julho, da estreia de "A Odisseia" trouxe à atenção de muitos espectadores o conceito de salas com características diferentes de outras, ou da existência de espaços onde a fruição cinematográfica se anuncia como mais qualitativa.
Apesar dos esforços movidos pelos exibidores, as dúvidas continuam a ser mais do que as conclusões: porquê escolher IMAX em vez da projeção 2D standard? O ScreenX é mais imersivo que o 3D, ou o 4DX? Quais as vantagens do som Dolby Atmos relativamente ao do IMAX? E o que são exatamente cada um destes formatos?
Assim, e em mais um exercício de promoção do cinema em sala, segue um guia, simplificado, mas exaustivo, dos vários formatos existentes no mercado de distribuição em Portugal.
Continua a ser a oferta de cinema mais comum no nosso país. Utiliza equipamentos digitais com resolução de 2K a 4K, e uma mistura de som entre seis (5.1) e oito (7.1) canais distintos. A projeção é em tela plana, sem efeitos tridimensionais.
Esta tipologia de projeção é, em teoria, ideal para filmes de orçamento modesto, reposições de clássicos ou títulos que não sejam anunciados como "grande formato"; contudo, nos últimos anos, a produção dos ditos blockbusters tem apostado em versões com qualidade para este formato. Em termos de custos para o consumidor, o preço do bilhete para uma sessão 2D Digital é o mais acessível.
Formato com muitas semelhanças técnicas à projeção em 2D Digital, com a particularidade de, através de filtros próprios no projetor e pelo uso de óculos específicos, gerar uma imagem tridimensional, amplificando efeitos como profundidade de campo, perspetiva e contraste.
Esta tecnologia também é aplicada em formatos especiais como IMAX Digital, XVision, ScreenX e 4DX.
Em Portugal, é a principal forma de ver projeção em grande formato, isto é, a experiência de cinema em ecrãs significativamente maiores, projeção de alta resolução e sistemas de som imersivos mais sofisticados do que as salas convencionais de 2D Digital Standard.
O IMAX Digital utiliza um sistema de dois projetores digitais 2K, ou equipamento único de projeção laser com resolução 4K, que projeta, sobre tela com dimensão superior a 20 metros, uma imagem com maior definição e brilho.
Em termos de som, e independentemente do lugar em que se esteja, a geometria e o alinhamento das colunas (através de tecnologia exclusiva) permitem uma distribuição sonora uniforme por toda a sala.
A fruição do IMAX Digital é superior para a visualização de filmes originalmente rodados com câmaras IMAX ("Homem-Aranha: Um Novo Dia"), em suporte de película 70mm ("A Odisseia"), ou em outros grandes formatos analógicos como o VistaVision ("Digger").
Por norma, e de forma a identificar um filme em grande formato, o material promocional – trailers, posters, páginas em redes sociais – reforça essa valência, através de slogans como "Veja em IMAX", "Filmado para IMAX", ou "Rodado em VistaVision".
Em termos de projeção, as salas 4DX e D-Box são muito semelhantes ao 2D e 3D digitais.
A principal aposta reside na experiência da própria sala. Na variante 4DX são instaladas cadeiras com vários efeitos de movimento e simulação de efeitos sensoriais (chuva, vento, odores) em conformidade com a ação do filme, proporcionando o que se designa por "realidade aumentada".
No caso dos lugares D-Box, as cadeiras possuem apenas os efeitos de movimento síncrono com a ação do filme sem outros efeitos sensoriais.
Dada a experiência interativa e lúdica destas salas, pode ser escolha ideal para uma sessão em família (a Wikipedia dispõe duma listagem de filmes disponíveis neste formato), embora seja contraindicado para espectadores com sensibilidades sensoriais, epilepsia, alergias, limitações físicas (por exemplo, cadeira de rodas), problemas cardíacos, ou grávidas.
Equipadas com três ecrãs (um frontal e dois laterais), as salas ScreenX têm a capacidade de oferecer uma projeção de 270º em cenas selecionadas – paisagens, ou ação em grande escala, por exemplo –, a qual é potenciada por uma disposição de lugares que permite ver toda a extensão panorâmica da imagem.
A Wikipedia também dispõe de uma lista de filmes, num formato que aposta, sobretudo, em produções de grande orçamento.
Concorrente direto do IMAX Digital, o XVision oferece uma projeção em tela de dimensão superior a 20 metros e sistema de som Dolby Atmos. A variante XLVision distingue-se apenas pela maior dimensão do ecrã. A disposição dos lugares é planeada em função de uma maior experiência imersiva pelo espectador. Em termos de custos, o preço é ligeiramente inferior à de uma sessão em IMAX.
É a resposta da Odeon (em Portugal, UCI Cinemas) no campo dos premium large-format (PLF) e oferece uma experiência com ecrã curvo de grande dimensão, resolução 4K e som Dolby Atmos.
Introduzido este ano pela Walt Disney Company, o Infinity Vision é um certificado comercial, destinado à projeção dos filmes da marca nas salas de grandes formatos. De acordo com a Disney, os filmes com selo Infinity Vision cumprem requisitos técnicos próprios e oferecem imagem e som de elevada qualidade.
"Vingadores: Doomsday", que estreia no próximo mês de dezembro, será uma primeira oportunidade para conhecer esta certificação.
Em Portugal, é possível escolher sessões para filmes apresentados com a tecnologia de som surround das salas Dolby Atmos. Aqui, a influência dá-se apenas na qualidade do som. Mediante configuração técnica e alinhamento de colunas específicos, o Dolby Atmos adiciona canais de som à mistura inicial, permitindo uma experiência mais envolvente e adaptável às condições (por exemplo, o número de espectadores na sala) de projeção.

O momento da escolha de uma sessão, para filme disponível em vários formatos, será sempre um ato subjetivo. Na verdade, pode depender mesmo do gosto pessoal de cada espectador. Por exemplo, tive a oportunidade de assistir "A Odisseia" duas vezes, primeiro em IMAX e depois numa sala Dolby Atmos com projeção 2D; confesso que apreciei mais o som do filme na segunda visualização (portanto, fica a sugestão).
Como em outros contextos, uma ida ao cinema deverá ser atividade de consumo consciente. Ou seja, para além do conhecimento sobre a qualidade do próprio filme, o local em que o vamos observar – sobretudo com uma variedade de oferta algo "tecnicista"– também é merecedor de um pequeno estudo prévio sobre o tipo de projeção que nos vão proporcionar.
Se a informação aqui partilhada vos ajudar a ir mais vezes à sala de cinema, fica, igualmente, a vontade de que a mesma contribua para que se sintam espectadores mais esclarecidos e, como muita vezes argumento, exigentes sobre o produto cinematográfico apresentado. Notar, durante a sessão, problemas como projeção com pouco brilho, ou som deficitário é motivo para uma chamada de atenção à gerência da sala e, se necessário, de formal e responsável reclamação no livro disponível para o efeito.
Seja IMAX, Xvision, ScreenX, ou 2D Digital, apesar da realidade do mercado, o fundamental é existirem projeções de qualidade e que valham o preço do bilhete.