Publicado em 27 Nov. 2025 às 22:14, por Samuel Andrade, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: Síndrome do Vinagre)
Uma reposição em sala e um novo Blu-Ray relançam questões sobre a ética do cinema digital aplicada à carreira de Kubrick.
De forma singular e coincidente, as últimas semanas de 2025 ficarão marcadas por duas novidades cinematográficas que reavivam debates em torno dos limites do restauro de cinema, versões renovadas de filmes clássicos e, por consequência, o mito e o legado de Stanley Kubrick junto de públicos que cresceram habituados à imagem digital nas suas diversas manifestações.
Anunciado com alguma pompa, as salas de projeção IMAX (Portugal incluído) acolhem, em dezembro, uma versão de "Shining" convertida para aquele tamanho e resolução. Desde muito cedo, surgiram dúvidas sobre a exequibilidade de o filme, apresentado em formato widescreen aquando da sua estreia, poder ajustar-se ao ecrã quase "quadrado" do IMAX, e como esse empreendimento respeitaria a visão original do cineasta.

Como é costume, a "magia" do digital advém sempre das suas matrizes analógicas. Permitam, então, uma breve explicação técnico-prática sobre processos de rodagem, projeção cinematográfica e restauro digital.
Stanley Kubrick filmou "Shining" num processo denominado "open matte". Por outras palavras, a imagem registada no negativo, em película de 35mm, ocupa todo o espaço do fotograma (num equivalente do 4:3), sendo o formato retangular garantido em projeção via máscara própria. Embora a informação relativa às especificações desta versão seja praticamente nula, não é descabido concluir que o restauro aproveitou toda a imagem dos negativos filmados há 45 anos. Portanto, perfeitamente adaptável a toda a dimensão dos ecrãs IMAX.

Com reação pública mais significativa, desde 18 de novembro, a Criterion Collection disponibiliza o restauro 4K UHD, em Blu-Ray, de "De Olhos Bem Fechados" (Eyes Wide Shut), o último trabalho de Stanley Kubrick antes da sua morte.
O marketing da Criterion sublinha que esta versão – supervisionada por Larry Smith, diretor de fotografia do filme – é a mais fiel, em termos de grão da imagem e de cor e iluminação das cenas, ao que os espectadores viram na sua estreia, em 1999, em cópias de projeção em 35mm.
O poder de redes sociais e fóruns online tem, simultaneamente, desafiado e apoiado as convicções publicitárias desta edição.
Pululam, assim, exercícios comparativos das versões que "De Olhos Bem Fechados" conheceu ao longo dos anos. E os consequentes debates sugerem que o trabalho de restauro da Criterion respeita, como nunca se viu antes, o aspeto dos suportes analógicos do filme.
Para quem, como eu, viu o filme em película, e espreitou a recente, quase secreta e – já – mítica digitalização de uma cópia sua em 35mm, a Criterion aparenta oferecer a mesma ambiência visual onírica e luminosa que Stanley Kubrick terá aplicado a "De Olhos Bem Fechados". Todavia, dada a caótica pós-produção do filme, forçada a lidar com o inesperado falecimento do seu realizador, nunca teremos a certeza se Kubrick completou uma versão final do filme.
No seio destas variantes digitais, e suas subsequentes discussões, o mais fascinante reside na inevitabilidade de falarmos das origens analógicas de "Shining" e "De Olhos Bem Fechados". Sem elas, não existiria a possibilidade destes "relançamentos", nem a adaptabilidade às modernas formas de comercialização de cinema junto das gerações mais novas; e este é só mais um argumento em prol da perseverança, tantas vezes aqui salientadas, dos velhos suportes em película como veículo para a salvaguarda da memória da Sétima Arte.
Em 2028 será assinalado o centenário de Stanley Kubrick, cineasta visionário com apetência em adotar tudo o que era tecnologicamente inovador em produção cinematográfica. Até lá, só podemos estar curiosos quanto à quantidade (e qualidade) das transferências da sua filmografia para este incerto mundo novo de resoluções 4K e "ultra high definitions".