Cartaz de cinema

"O Espírito da Colmeia" por Pedro Sesinando
"Duas Vezes João Liberada": resgates da memória

Publicado em 19 Jun. 2026 às 14:31, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia)

"Duas Vezes João Liberada": resgates da memória

Paula Tomás Marques recusa os limites do metacinema para erguer uma arquitetura narrativa onde passado e presente se interpelam.

As primeiras cenas de "Duas vezes João Liberada", a primeira longa de Paula Tomás Marques, parecem confundir-nos na ideia de estarmos perante uma obra a flirtar com o metacinema, termo que aqui é invocado para podermos concluir que, na verdade, essa categorização seria, no mínimo, redutora. Não que a categorização seja imperativa, mas porque é na arquitetura montada pela autora e sobre a qual evolui a narrativa que reside uma boa parte da força do filme. 

"Duas vezes João Liberada", acompanha uma atriz, João (June João), protagonista de um filme biográfico sobre João Liberada, uma jovem dissidente de género perseguida pela Santa Inquisição e cuja construção ficcionada resulta de uma investigação levada a cabo por Paula Tomás Marques com base em documentação dos julgamentos do Santo Ofício sobre pessoas consideradas fora da norma de género, ou sexualidade. 

Ambos os filmes, aquele que vemos e o que João protagoniza, avançam em simultâneo, não necessariamente em paralelo, e permitem à realizadora explorar questões e dúvidas não só sobre tempos idos e presentes, mas também sobre a própria abordagem cinematográfica à pessoa, ou personagem, sujeita à biografia. Tal é materializado através do contraponto de perspetivas perante a condução do filme que João protagoniza e que lhe geram dúvidas sobre se a abordagem de Diogo, o realizador, que se mantém rígido na ideia de contar a história tal como documentada pelos autos da Inquisição, será aquela que preserva a integridade da biografada. 

A redução de Liberada a um objeto de análise e veredicto de um tribunal - para mais com as características de um tribunal de Inquisição – e a ausência de uma perspetiva da própria biografada, faz crescer o conflito interno na protagonista, sobre como de facto reconstruir a história ou, pelo menos, considerar a memória que Liberada queria que fosse guardada sobre si. 

O filme carrega confortavelmente esta capacidade de levantar as dúvidas sem entregar respostas definitivas e encontra alguma pacificação, personificada em João, na fórmula de "contextualizar o passado através das dúvidas do presente", para resgatar a história de Liberada até um paralelismo com os dias de hoje. 

De facto, a história de João Liberada, tal como a vemos nas rodagens do filme de Diogo, foi contada e fixada pelos seus carrascos e perdurou até à contemporaneidade, apagando-se qualquer outra perspetiva que não a inquisitória. É do temor a essa ausência de controlo sobre a história que deixará, que se alimenta a inquietude em João. Em particular porque habita tempos em que outros carrascos parecem querer levantar-se.