Publicado em 25 Jul. 2026 às 20:24, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia)
Separados pela distância e pela linguagem cinematográfica os filmes de Bill Morrison e Marie-Rose Osta encontram-se no mesmo ponto de fuga: a reação espontânea e humana perante o arbítrio e a injustiça.
A ideia de que um filme documental passado nos Estados Unidos da América, mais concretamente numa rua de Chicago, possa de alguma forma dialogar com uma peça de ficção situada numa pequena aldeia libanesa seria, à partida, improvável. E ainda assim, "Sawyer Avenue, Sunday Afternoon", que através de imagens reais nos mostra uma ação de resistência espontânea de uma comunidade de Chicago a uma rusga de agentes da polícia de Imigração - vulgo "ICE" - , e "Yawman ma Walad (Someday a Child)", sobre uma criança libanesa cujo superpoder é derrubar aviões de caça israelitas que ameaçam a sua aldeia, mantêm essa ligação visceral sobre a transversalidade da revolta perante a injustiça, seja concreta. como em "Sawyer Avenue". ou alegorizada, como no caso do filme da jovem libanesa Marie-Rose Osta que, precisamente com esta curta-metragem, foi distinguida em Berlim com o Urso de Ouro.
A abordagem de Bill Morrison em "Sawyer Avenue, Sunday Afternoon" está muito perto da reportagem, recriando a partir de várias fontes, desde bodycams a material audiovisual recolhido por telemóvel, uma ação de detenção de um jovem mexicano levada a cabo por uma patrulha de agentes ICE encapuçados, em Chicago.
Num plano sequência de cerca de quinze minutos, Morrison acompanha a intervenção das autoridades e o escalar da situação resultante da espontânea aglomeração de cidadãos indignados com a arbitrariedade da atuação policial e a resposta desta quando os populares tentam sabotar a detenção.
Em "Yawman ma Walad" o agente opressor também não tem rosto - a ameaça chega a Michel, a criança, através dos zumbidos dos aviões de guerra que sobrevoam a sua aldeia e lhe perturbam o sono. Marie-Rose Osta usa o transcendental como artifício de refúgio para Michel - espécie de criança-efígie para todas aquelas que são acossadas pela guerra, seja no Líbano, em Gaza ou em qualquer outra geografia– entregando-lhe o dom de derrubar aviões e derrotar a guerra.
Pelas frechas desta fantasia criada por Osta vai entrando a realidade, incorporada em particular na personagem do tio de Michel, com quem vive, e que se preocupa em manter os poderes do sobrinho em segredo, de forma que não este possa ser instrumentalizado como arma de guerra.
Tal como na realidade, a curiosidade da criança pode sempre mais que o temor do adulto, e é a partir desta ambiguidade entre real e imaginado, entre a inocência infantil e o cinismo adulto, que é construída a psique de "Yawman ma Walad": o desejo de que, através de um golpe de magia, possa cessar a violência.