Publicado em 22 Jul. 2026 às 09:11, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia, Festivais de cinema)
No arranque da 34.ª edição do festival, algumas notas sobre as obras de Ibrahim Omar, João Niza Ribeiro e Siri Hammarén exibidas nas principais secções competitivas.
Há um sentimentalismo quimérico associado à ideia de fazer chegar a arte em diversas formas até sítios inóspitos, de pequenas comunidades remotas que de outra forma não teriam acesso a ditas manifestações artísticas, emoção que não raras vezes é explorada no cinema ou na literatura com uma certa dose de condescendência, exaltando o pitoresco da situação. Não será seguramente o que Ibrahim Omar, realizador sudanês, propõe em "Nothing Happens After Your Absence", que passou por Cannes e faz a sua estreia em solo nacional precisamente na Competição Internacional do Festival Internacional de Curtas de Vila do Conde.
Sob o pretexto de seguir a epopeia burocrática de Ibrahim, realizador e protagonista, no desígnio de levar sessões de cinema à sua aldeia de origem, "Nothing Happens After Your Absence" conduz-nos por um Sudão marcado pela irrupção de um conflito fratricida. Omar deixa a guerra longe da tela, permitindo-se manter o humor implícito da situação, explorando como trágica consequência do conflito a demora, já de si longa mesmo em tempos de paz, que os seus filmes terão para chegar à aldeia. Em Omar, tal como em Panahi para citar apenas uma referência, o mais modesto gesto pode ser um ato de sobrevivência.
A concorrer em dois certames, Competição Internacional e Nacional, está "Vermelhos do Asfalto", de João Niza Ribeiro. O filme acompanha Omar, homónimo do já referido realizador sudanês, migrante do Benim que sobrevive como estafeta de entregas na cidade do Porto.
Há um inegável mérito no filme de Niza Ribeiro na forma como enquadra o passado recente e o presente de Omar, isto é, em como a constrói o retrato psicológico de Omar em cima da bagagem emocional que supõe a travessia até à Europa, mas também a existência precária e sem noção de perspetiva futura após a chegada, bem como a angústia por não ter notícias do irmão, também ele em busca da melhor forma de atravessar desde o norte de África até ao continente europeu. No entanto, o filme perde-se na ideia de querer chegar a todo o lado e assumir um moralismo velado, percorrendo uma checklist de pontos que aparenta querer denunciar e que vão desde uma suposta hipocrisia da juventude progressista que não abdica do conforto e utiliza aplicações de entregas que promovem a precariedade laboral, até ao racismo policial, que aqui é retratado próximo da caricatura.
De Siri Hammarén, chega-nos o melhor filme dos dois primeiros dias de Festival: "You Say That You"re Staying at the Party Because You"re Having Fun". Passado numa sala de tribunal dinamarquesa, o filme acompanha uma jovem mulher alemã que ouve a tradução do seu próprio depoimento, a partir da língua dinamarquesa para o seu alemão nativo. Hammarén fixa o rosto na mulher enquanto são narrados os acontecimentos da noite em que sofreu uma agressão sexual, tal como os reportou.
O filme encontra a sua força no escalar pausado das descrições, narradas com pausas para tradução dos excertos, mas sempre num tom maquinal muito condizente com a formalidade da sala de tribunal, em que uma sucessão de acontecimentos inicialmente prosaicos termina na violenta descrição da agressão. O contraste entre a frieza do discurso e das formas relativamente à brutalidade do conteúdo são acentuados pelo visível desconforto da jovem mulher, que Hammarén filma de modo que esse desconforto supere a tela e não nos permita nenhuma forma de escapismo.
A maior capacidade do filme está em como Hammarén não se limita a retratar a violência da revisitação que a vítima faz ao momento traumático através da leitura do depoimento, mas também como, usando o mesmo artifício do depoimento, se propõe explorar outras formas de violência emocional implícitas, na ideia da dúvida institucional perante a vítima e a sua própria condição, presente na forma de cada frase do depoimento, sempre formulada com "du sagst"/"you say"/"tu dizes que", mas também na forma articulada e formatada como são descritos os acontecimentos, numa frieza que afasta qualquer outro tipo de contexto, deixando que germine na vítima a dúvida perversa de que, em vários momentos da noite poderia ter decidido de outra forma.