Publicado em 22 Jul. 2025 às 20:41, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia, Festivais de cinema)
Últimos apontamentos sobre o festival centrados em Mahdi Fleifel, alvo de uma retrospetiva, e em "Alışveriş", vencedor da competição internacional.
O Curtas de Vila do Conde 2025 encerrou mais uma edição onde manteve o olhar atento sobre as múltiplas formas de resistência que o cinema pode assumir, da força do arquivo pessoal à crítica social mordaz. Ambos evidenciados na retrospetiva dedicada ao cineasta palestiniano-dinamarquês Mahdi Fleifel, que devolve a memória viva de um povo em exílio, e na vitória do romeno Vasile Todinca na Competição Internacional com "Alışveriş", um retrato sarcástico e pulsante das tensões sociais contemporâneas.

Durante a apresentação de "A World not Ours", o cineasta Mahdi Fleifel, enquanto partilhava a experiência de construir este seu filme de 2012, dava conta ao auditório de que se lembrou das palavras de Abbas Kiarostami que, ao regressar de uma viagem a um país da África subsariana com o propósito de fazer trabalho de pesquisa para um filme que lhe havia sido comissionado, percebeu que o filme era na realidade a própria pesquisa.
Também o realizador palestino-dinamarquês, a quem o Curtas dedicou uma retrospetiva na sua secção InFocus, ao prestar-se à tarefa de processar o arquivo audiovisual que o próprio foi recolhendo desde a sua infância no campo de refugiados de Ein el-Helweh, no sul do Líbano, fê-lo inicialmente com a intenção de pesquisar para um possível trabalho de ficção, dando-se rapidamente conta de que o filme já ali estava, à espera de ganhar forma a partir daquelas imagens em bruto.
De facto, nota-se em "A World not Ours" a ingenuidade de primeira obra, uma legítima procura de uma linguagem de cinema que ajude a retratar uma realidade "mais estranha que a ficção", citando livremente o próprio realizador a propósito da condição palestiniana no mundo. E é com os fragmentos dessa realidade, confinada ao espaço que as fronteiras de Ein el-Helweh impõem, que Fleifel constrói um relato capaz de atravessar diferentes gerações de palestinianos e debruçar-se sobre a sua relação com o exílio e com o ostracismo.
Em Ein el-Helweh a passagem do tempo é uma ilusão vivida de forma diferente pelos velhos que aguardam firmes na esperança do retorno à terra de onde foram expulsos, e pelos jovens que vivem a estagnação e o confinamento balançando entre a raiva e a depressão.
A frase de Ben-Gurion partilhada no filme a propósito do exílio forçado dos palestinianos após a Nakba (a grande catástrofe), sobre os velhos morrerem e os jovens esquecerem, soa a algo mais do que presságio, vincando a necessidade de mapeamento da história de um povo colonizado através de algo tão perene e ligado às emoções como o cinema, desígnio que Mahdi Fleifel abraça recorrentemente com a sua obra.

A Competição Internacional do Curtas de Vila do Conde premiou "Alışveriş" do romeno Vasile Todinca, cineasta que parece querer agarrar a linha lançada por Radu Jude no que toca a uma linguagem cinematográfica que usa o sarcasmo e a redução ao absurdo para compor um retrato sociológico contemporâneo. Tal como Jude em, por exemplo, "Não Esperes Demasiado do fim do Mundo", Todinca explora as dinâmicas de precariedade da sociedade atual, acompanhando uma mulher que, para ganhar o direito a permanecer mais um mês na sua casa, passa o dia a tentar pesar uma trança de cabelo para saber por quanto a poderá vender.
Mais uma vez, tal como no caso do seu compatriota Jude, Todinca aplica um ritmo frenético à sua narrativa, um tom sempre mais sarcástico que dramático, deixando a sua personagem deambular por entre uma cidade que fervilha de publicidade, néons e promoções irrecusáveis que são no fundo, estímulos do mesmo sistema que a ameaça expulsar de casa.
Se, por um lado, "Alışveriş" peca por estar demasiado próximo do que já foi feito recentemente no cinema romeno, por outro ganha pontos pela inteligência com que entrega o seu ponto, pela sua contemporaneidade e pela forma como a sua ideia se permite extrapolar além-fronteiras. Afinal, e ao que parece, a Roménia não é assim tão longe.
De entre a Competição Internacional destaque-se ainda o filme do francês Guil Sela, "No Skate!", sobre dois amigos que, durante as Olimpíadas de Paris, estão incumbidos da tarefa de tentar convencer a população sobre os benefícios, ou melhor, a ausência de malefícios de nadar no Sena. Embora viva muito da interação entre ambos os atores, "No Skate!" consegue criar um subtexto interessante sobre a vertente política dos Jogos Olímpicos, ou melhor, sobre a forma como os grandes eventos têm sido entendidos mais como uma desculpa para bravatas políticas que para uma criação de um espaço de comunidade e no qual a mesma se sinta envolvida.