Cartaz de cinema

Curtas de Vila do Conde 2025 - notas do primeiro dia

Publicado em 12 Jul. 2025 às 17:25, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: Síndrome do Vinagre, Festivais de cinema)

Curtas de Vila do Conde 2025 - notas do primeiro dia

A 33.ª edição do Curtas de Vila do Conde arrancou com uma homenagem nostálgica a Whit Stillman e uma primeira amostra da Competição Internacional marcada pela delicadeza de "Casa Chica", da mexicana Lau Charles.

Na 33.ª edição, o Curtas de Vila do Conde propõe, na secção InFocus, uma retrospetiva da obra de Whit Stillman, dedicando honras de abertura a "Last Days of Disco", filme de 1998 do cineasta norte-americano. Movendo-se num ambiente familiar a Stillman, a balançar entre a comédia de costumes e o coming of age, "Last Days of Disco" acompanha um grupo de jovens yuppies na Nova Iorque do início dos anos 80, numa altura em que o movimento Disco já parece viver o seu último estertor. 

O filme é, acima de tudo, um veículo para Stillman apurar o seu sentido satírico, quase cínico, através de personagens logomaníacas, suficientemente audazes para presumir de teses sociológicas a partir de filmes da Disney. Stillman é, no entanto, suficientemente generoso para entregar às personagens uma densidade para lá da caricatura, colocando-as num estado de urgência que é alimentado pela busca de estarem à altura de um estatuto e tipo de vida social que projetaram para si mesmos. 

Sem uma narrativa particularmente sólida e pontuado pela presença constante de uma banda sonora que ajuda a situar a época, o filme movimenta-se por entre os escritórios, os cafés da cidade, o primeiro apartamento partilhado pelas protagonistas Charlotte e Alice – interpretadas por Kate Beckinsale e Chloë Sevigny – mas, acima de tudo, pela discoteca para onde o grupo converge com o afã de conviver e experimentar uma ideia de exclusividade ao mesmo tempo que procura pertencer a um movimento. 

Stillman não procura construir um filme à volta de um tempo particular, ou sequer entrar a fundo na sociologia do Disco. Na verdade, usa o declínio do fenómeno enquanto cultura urbana dominante apenas como um pretexto para entregar o seu subtexto nostálgico, fazendo a analogia entre a morte do movimento e o despertar abrupto do fim da juventude.

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Casa Chica

No primeiro dia do Curtas arranca também a Competição Internacional, com uma primeira sessão de onde se destaca "Casa Chica" da mexicana Lau Charles. O termo casa chica - "casa pequena" em português – é usado para descrever um fenómeno comum na sociedade mexicana, em que um homem mantém uma família secreta para lá da principal que vive na casa grande. 

Baseando-se na sua própria biografia, Charles propõe um ensaio em redor desta premissa, entregando o ponto de vista às crianças que vivem dentro desta realidade. 

Após a separação dos pais, Quique e Valentina, as crianças, recebem a visita do pai que os leva a conhecer a sua segunda família, apercebendo-se pela primeira vez que têm outra irmã da mesma idade que Valentina. 

Pegando neste episódio em particular, o filme desdobra-se posteriormente num díptico, em que a mesma narrativa é contada através da perspetiva de cada um dos irmãos, estratégia que permite à realizadora mexicana acentuar o impacto emocional que as escolhas dos adultos têm nas crianças e na realidade em que estas são forçadas a viver. 

Com a inestimável colaboração dos protagonistas, Charles constrói uma peça em que a simplicidade e a narrativa económica não impedem que o filme ganhe uma honesta dimensão sociológica de inegável sensibilidade.

O Curtas de Vila do Conde prossegue até 20 de julho.