Publicado em 24 May. 2026 às 11:54, por filmSPOT, em Notícias de cinema (Temas: Festivais de cinema, Cinema Europeu)
O realizador romeno recebeu a Palma de Ouro pelo drama "Fjord".
O cineasta romeno Cristian Mungiu conquistou a Palma de Ouro do 79.º Festival de Cannes com "Fjord", um drama familiar sobre choques culturais e tolerância, numa cerimónia que consagrou interpretações partilhadas e celebrou a liberdade criativa face às pressões ideológicas.
Mungiu recebeu o segundo prémio máximo do festival francês dezanove anos após o triunfo com "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias".
O júri, liderado pelo sul-coreano Park Chan-wook, enalteceu a obra pela capacidade de esclarecer diferentes perspetivas "de forma artisticamente magnífica".
A trama de "Fjord" acompanha um informático romeno, interpretado por Sebastian Stan, que decide mudar-se com a sua família de sete pessoas para a terra natal da esposa (Renate Reinsve), na Noruega. A intromissão dos serviços locais de proteção de menores, motivada por visões distintas sobre a educação, inicia um conflito que expõe o embate entre valores conservadores e progressistas.
No palco, Mungiu definiu o projeto como um apelo à tolerância, à inclusão e à empatia. O realizador de 58 anos, marcado pela infância sob o regime de Nicolae Ceausescu, aproveitou para alertar que o controlo ideológico e o silenciamento do pensamento crítico também se manifestam nas sociedades democráticas. Na perspetiva do autor, o cinema deve manter a sua matriz polémica e recusar guiões polidos que servem apenas para validar as correntes de opinião vigentes. Após a sessão, o cineasta reiterou a premissa do seu trabalho, ao defender que a existência de opiniões divergentes nos obriga a reavaliar as próprias convicções, sem pressupor verdades absolutas.
O Grande Prémio distinguiu o russo exilado Andrey Zvyagintsev por "Minotaur", uma análise sobre a degradação social no seu país. Atualmente a viver em França, o cineasta aproveitou a oportunidade para exigir publicamente que o presidente Vladimir Putin ponha fim à guerra na Ucrânia.
As categorias de representação ficaram marcadas por decisões coletivas. O prémio de melhor interpretação feminina consagrou a belga Virginie Efira e a japonesa Tao Okamoto pelo desempenho em "Soudain", uma obra de Ryusuke Hamaguchi sobre os laços humanos num lar de idosos. Efira caraterizou a rodagem como uma experiência existencial indelével, enquanto Okamoto, que se estreou em produções francófonas, viu o seu primeiro grande papel no cinema premiado na Croisette.
No lado masculino, o júri escolheu o francês Valentin Campagne e o estreante belga Emmanuel Macchia pela atuação em "Coward", de Lukas Dhont, focado no romance clandestino entre dois soldados na Primeira Guerra Mundial. Macchia, descoberto pelo realizador numa escola agrícola, partilhou o desejo de que o filme ajude o público jovem a aceitar-se. Campagne vincou a urgência de viver, dançar e amar acima dos preconceitos.
A melhor realização galardoou, ex-aequo, os espanhóis Javier Calvo e Javier Ambrossi, por "La Bola Negra", e o polaco Paweł Pawlikowski, por "Fatherland".
O Prémio do Júri destacou a alemã Valeska Grisebach por "Das geträumte Abenteuer". A cantora e atriz norte-americana Barbra Streisand, de 84 anos, recebeu uma Palma de Ouro honorária. Impedida de viajar devido a uma lesão no joelho, Streisand enviou uma mensagem em vídeo na qual aplaudiu o poder do cinema para aproximar comunidades.
A transmissão do encerramento na France 2, sob a condução de Eye Haïdara, registou uma audiência recorde de 2,8 milhões de telespectadores. O pico de visualizações ocorreu precisamente durante a consagração de Efira e Okamoto.