Publicado em 20 Aug. 2025 às 19:15, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia)
Athina Rachel Tsangari converte uma aldeia perdida no tempo num espelho de tensões onde a chegada do capitalismo rural abala alicerces de uma comunidade prestes a desaparecer.
Não fosse pelo linguajar enrolado do inglês que relacionamos naturalmente com o sotaque das terras altas escocesas e pelo regionalismo "loch" usado por uma das personagens para nomear o lago da aldeia, diríamos que a ação de "A Colheita" juntaria a indefinição espacial à temporal, características que a realizadora Athina Rachel Tsangari utiliza com habilidade para dar à narrativa o carácter alegórico que tão bem condiz com a dimensão política do filme.
Situado neste limbo de terra e época, "A Colheita" acompanha o quotidiano de uma aldeia rural que vive de acordo com os ritmos das estações, dos humores da natureza e das disposições de um benevolente senhor feudal, numa harmonia precária que será quebrada por várias irrupções forasteiras: um cartógrafo que chega para se dedicar a mapear o lugarejo e o seu território circundante; um grupo de viajantes que decide pernoitar nas terras que ladeiam a aldeia e, por fim, a visita do real proprietário das terras, um nobre com ascendente hierárquico sobre o já conhecido senhor feudal.
Como diferentes premonições de uma mesma tragédia, estes três episódios serão os veículos nos quais Tsangari se apoiará para criar um quadro psicológico sobre uma comunidade que não só está prestes a ser desmantelada como vive num preciso ponto de inflexão da história, embora naturalmente alheada dessa perspetiva.
Tal como Kelly Reichardt em "First Cow" abordou os primórdios do capitalismo nuns Estados Unidos a viver os primeiros passos da colonização e da conquista para oeste, também Tsangari em "A Colheita" aborda a revolução social e laboral que vem do declínio da lógica medieval de comunidade e da sua relação com a exploração da terra, e da substituição desta por uma forma de capitalismo rural, uma racionalização do território e da força de trabalho para servir uma ideia de otimização de lucro e que leva a impactos na organização e na subsistência da própria comunidade.
Este avanço da modernidade vem personificado precisamente na pessoa do proprietário, Master Jordan, que decide romper o acordo tácito que aquela comunidade rural mantinha com o seu antigo mestre e mudar o paradigma de exploração das terras, o que provocará o desintegrar da aldeia.
Embora apresente o vilão da história desta forma tão evidente, talvez necessária para manter a alegoria viva, Tsangari optou por não fazer de "A Colheita" um conto moralista, sugerindo antes uma forma de olhar para uma comunidade que se desagrega por ações externas, de como reage com coragem a certos estímulos e passivamente a outros, em igual dimensão.
Não existe o retrato romanceado de uma comunidade moralmente perfeita, ou sequer aferrada a um sentido de justiça e de sobrevivência. Mesmo a presença do cartógrafo, que é apresentado não sem um laivo poético de romantismo, até pela nobre tarefa que tem de nomear e desenhar as belezas naturais do território, se verá corrompida ao longo da narrativa.
Tsangari conduz "A Colheita" algures entre o realista e o delirante, através de planos que mostram de igual forma a delicadeza e a ferocidade da natureza, e de como esta pode ser agreste para com a presença humana.
Numa estética que conjuga a fase mais clássica de Pasolini com os painéis de Brueghel, a realizadora grega leva o filme por tons cinzentos de moralidade, embora não se negue a evidenciar uma dicotomia que se vai destapando com o desenrolar da narrativa e que contrapõe o apego emocional e o naturalismo militante de Walter Thirsk (Caleb Landry Jones) - personagem que parece imaginada por Henry David Thoreau - com a ambição e pragmatismo de Master Jordan (Frank Dillane), que confessa a Walter o plano de conseguir retirar abundância das terras com menos esforço.
Aparte qualquer consideração ética sobre a ideia de Jordan, a verdade é que os cânones morais de Walter são abalados até às suas fundações. Ele que acredita, mais até que na humanidade, que cuidar a terra e semeá-la é a única forma de defender a primavera.
2025 | Drama | 133 min
Com Caleb Landry Jones, Harry Melling, Rosy McEwen
Realização Athina Rachel Tsangari
Class. etária M/14
Estreia em Portugal 21 Aug. 2025
Distribuidor Alambique