Publicado em 29 Dec. 2025 às 19:55, por filmSPOT, em Notícias de cinema (Temas: Ciclos de cinema)
O ciclo "Uma Cinemateca em Chamas – História de Projeção e Projecionistas" inaugura a programação de 2026 com mais de sessenta filmes em suporte original, uma exposição documental e sessões comentadas que destacam o papel técnico e humano na sala escura.
A Cinemateca Portuguesa inicia o novo ano com uma ofensiva contra a desmaterialização digital do cinema. Através do ciclo "Uma Cinemateca em Chamas – História de Projeção e Projecionistas", a instituição da Rua Barata Salgueiro dedica o mês de janeiro à celebração da película e dos profissionais que, a partir da cabine, operam a magia das imagens em movimento. Com mais de sessenta sessões, a iniciativa foca-se na experiência física do espetador e na preservação das técnicas tradicionais de exibição, numa altura em que a figura do projecionista foi largamente substituída por processos automatizados no circuito comercial.
Abrangendo diversas latitudes e épocas, o programa inclui desde as primeiras experiências dos irmãos Lumière até à estética das sessões de exploração do século XXI. Entre os destaques figuram obras projetadas nos seus formatos nativos, como "The Purple Rose of Cairo", de Woody Allen, e os dois volumes de "Gremlins", de Joe Dante, ambos em 35 mm.
O cinema experimental marca presença com "The Flicker", de Tony Conrad, em 16 mm, e o trabalho de Jerome Hiller. A diversidade de suportes é explorada de forma radical em "We Can"t Go Home Again", de Nicholas Ray, que funde 35 mm, 16 mm, Super 8 e vídeo. O cartaz inclui ainda a experiência do cinema tridimensional com a exibição em 3D de "Dial M for Murder", de Alfred Hitchcock, e "Cavalcade", de David Crosswaite.
Um dos eixos centrais deste ciclo é a valorização do projecionista enquanto garante da continuidade histórica da sétima arte. Oito profissionais da casa foram convidados a programar uma "Carta Branca", selecionando filmes que marcaram as suas carreiras e memórias na sala escura. Numa sessão pedagógica especial, o chefe de cabine José Martins demonstrará o funcionamento de quatro projetores distintos - 8 mm, 9.5 mm, 16 mm e 35 mm - explicando as especificidades mecânicas e visuais de cada formato enquanto projeta pequenas fitas.
Complementarmente às sessões de cinema, a exposição "O Regresso do Cometa Halley – histórias de projeção e projecionistas" ocupará vários espaços do edifício, apresentando coleções de aparelhos, documentos e iconografia que narram a evolução tecnológica da projeção.
O título do ciclo remete simbolicamente para o incêndio que, em 1981, destruiu a sala da Cinemateca devido à combustão de película de nitrato, sublinhando a natureza frágil e inflamável da matéria-prima do cinema.
Pode consultar toda a programação aqui.