Publicado em 13 Jan. 2026 às 20:16, por filmSPOT, em Notícias de cinema (Temas: Indústria cinematográfica, Box office)
A sala lisboeta terminou 2025 com quase 90 mil espectadores, um aumento superior a 30% face ao período homólogo e prepara um novo ciclo de estreias e retrospetivas para 2026.
Num ano marcado pelo encerramento de diversas salas de cinema e por uma quebra generalizada na afluência de público em Portugal, o Cinema Nimas apresenta resultados em contraciclo. A sala, gerida pela Medeia Filmes, contabilizou 88 512 espectadores no último ano, o que representa um crescimento de 31,5% em comparação com 2024. Este desempenho destaca-se no panorama nacional, onde os índices de frequência atingiram valores historicamente baixos.
Com 200 lugares, a sala de cinema lisboeta manteve uma frequência média diária superior a duas centenas de pessoas. Muitas das 1 818 sessões projetadas ao longo de 2025 esgotaram a capacidade disponível. A programação integrou 459 títulos, incluindo mais de 100 estreias nacionais.
Paulo Branco, responsável pela exploração da sala, descreve os números como inesperados e atribui o sucesso à liberdade de programação e ao compromisso de uma equipa dedicada. O exibidor associa a crise do setor à falta de educação cinematográfica e à perda de qualidade da experiência nas salas convencionais. Para Branco, a exigência do público dita a necessidade de uma oferta que justifique a saída de casa em detrimento do consumo doméstico.
Para 2026, o Nimas mantém a aposta no diálogo entre obras novas e clássicos restaurados. O calendário de estreias portuguesas arranca em março com "Maria Vitória", de Mário Patrocínio, seguido de "O Massacre de Gilles de Rais", de Juan Branco, e "Entroncamento", de Pedro Cabeleira. Em abril, estreia "O Barqueiro", de Simão Cayatte, enquanto maio recebe "Fuck the Polis", a nova obra de Rita Azevedo Gomes. Em setembro, chega ao ecrã "Memórias do Cárcere", de Sérgio Graciano, adaptado do texto de Camilo Castelo Branco.
A programação internacional reserva espaço para o novo filme de Abdellatif Kechiche, "Mektoub My Love: Canto Due", e para "Silent Friend", da realizadora Ildikó Enyedi. A lista inclui ainda o projeto do cineasta chinês Bi Gan, "Ressurrection", e "Los Domingos", de Alaúda Ruiz de Azúa, obra distinguida com a Concha de Ouro em San Sebastián.
No campo das retrospetivas, o foco recai sobre o cinema francês. A 19 de fevereiro, inicia-se o ciclo "Eustache e Garrel – Os Inclassificáveis do cinema francês", que apresenta a obra integral de Jean Eustache e uma seleção dedicada a Philippe Garrel. Durante os meses de verão, o cinema exibe a retrospetiva completa de Agnès Varda, seguindo-se ciclos dedicados a Michael Haneke e Otar Iosseliani, todos com recurso a cópias restauradas.
Para Paulo Branco, os números de 2025 revelam uma transformação na relação do público com o cinema. "Há qualquer coisa a passar-se", afirma o produtor e programador, sublinhando a chegada de novos espectadores à sala e defendendo que a missão do Cinema Nimas de dar a "descobrir filmes novos para novos espectadores".
Este fenómeno de crescimento estende-se a outros espaços de exibição focados no cinema de autor e no património fílmico. A Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, consolidou a sua posição em 2025 com mais de 52 mil espectadores, a maior audiência nas salas da Rua Barata Salgueiro das últimas duas décadas, reforçando o papel da preservação e da exibição de clássicos na formação de novos públicos. A norte, o Cinema Trindade, no Porto, confirmou a viabilidade das salas de circuito independente. Através de uma programação cuidada e próxima da comunidade local, o espaço portuense registou um crescimento expressivo de 22% que acompanha a tendência de vitalidade observada no Nimas e evidencia uma procura por espaços alternativos fora dos complexos nos centros comerciais.