Cartaz de cinema

Cineastas criticam Mubi por ligação a Israel

Publicado em 31 Jul. 2025 às 19:39, por filmSPOT, em Notícias de cinema (Temas: Bastidores)

Cineastas criticam Mubi por ligação a Israel

Mais de três dezenas de realizadores, entre os quais Aki Kaurismäki, Radu Jude, Sarah Friedland e o português Miguel Gomes, assinaram uma carta aberta exigindo que a plataforma de cinema independente rompa laços com o investidor acusado de financiar a tecnologia militar israelita.

Mais de 35 cineastas com ligações à Mubi - plataforma de streaming e distribuidora de cinema de autor - subscreveram uma carta aberta na qual apelam à empresa para reconsiderar a sua relação com a firma de capital de risco norte-americana Sequoia Capital e condenar publicamente a sua atuação. Entre os signatários encontram-se nomes como Radu Jude, Aki Kaurismäki, Sarah Friedland, Joshua Oppenheimer e o português Miguel Gomes.

A polémica surgiu após a Mubi anunciar, no final de maio, um investimento de 100 milhões de dólares por parte da Sequoia Capital. Rapidamente surgiram críticas devido aos laços da empresa de Silicon Valley com a indústria militar israelita. Em 2024, a Sequoia investiu na Kela, startup de tecnologia de defesa fundada por antigos membros dos serviços de informações israelitas na sequência dos ataques do Hamas a 7 de outubro e da invasão de Gaza. A Kela desenvolve atualmente um sistema operativo para uso em situações de combate.

Os cineastas denunciam que "o crescimento financeiro da Mubi está agora explicitamente ligado ao genocídio em Gaza", acusando a empresa de se tornar cúmplice de violência contra artistas e cineastas palestinianos. Entre as exigências apresentadas contam-se: a condenação pública da Sequoia Capital por "lucrar com o genocídio", a remoção do sócio da Sequoia Andrew Reed do conselho de administração da Mubi e a implementação de uma política ética para futuros investimentos, conforme as diretrizes da campanha palestiniana PACBI de boicote académico e cultural a Israel.

O movimento junta-se a um crescente boicote internacional à plataforma. Diversos parceiros culturais e festivais de cinema cancelaram colaborações, incluindo o Centre for Contemporary Arts de Glasgow, a Cineteca Nacional da Cidade do México e a Cinemateca de Bogotá, que retiraram a sua participação no festival itinerante Mubi Fest. O Festival Internacional de Cinema de Valdivia, no Chile, anunciou igualmente que deixará de exibir filmes distribuídos pela empresa.

A organização Girls In Film, que colaborava com a Mubi há sete anos, também pôs fim à parceria, acusando a empresa de privilegiar o crescimento comercial em detrimento dos artistas e das comunidades marginalizadas.

Face à contestação, a Mubi afirmou que "as opiniões de investidores individuais não reflectem as posições da empresa" e recusou comentar a carta aberta.

Onda de boicotes culturais a Israel

O caso Mubi é o exemplo mais recente de tomadas de posição contra a intervenção israelita em Gaza no meio artístico e cultural. Em maio, mais de 70 artistas anunciaram um boicote ao festival de música Sónar, em Barcelona, devido às relações do proprietário com investimentos ligados a colónias ilegais nos territórios ocupados; em Londres, a dramaturga Caryl Churchill retirou uma produção do teatro Donmar Warehouse, em protesto contra o patrocínio do Barclays Bank, criticado por alegadas ligações à indústria militar israelita; no Canadá 18 companhias de teatro recusam financiamento ou colaborações com instituições consideradas cúmplices na ocupação israelita de território palestiniano.

Este mês, o realizador português Pedro Pinho recusou o convite para apresentar o seu filme "O Riso e a Faca" no Festival de Cinema de Jerusalém, alegando que o evento, organizado pela Cinemateca de Israel, "é cúmplice no que se está a passar na Palestina". Pinho declarou no Instagram que participar em eventos que promovem uma suposta normalidade face ao genocídio em curso seria uma "mais pura cumplicidade". 

Entre os títulos que integraram a competição da 42.ª edição do Festival de Cinema de Jerusalém estiveram filmes como "O Agente Secreto", do realizador brasileiro Kléber Mendonça Filho, "L'inconnu de la Grande Arche", do francês Stéphane Demoustier, "Two Prosecutors", do ucraniano Sergei Loznitsa e "In die Sonne schauen", da alemã Mascha Schilinski.