Cartaz de cinema

Béla Tarr (1955-2026): poeta do fim do mundo

Publicado em 6 Jan. 2026 às 17:36, por filmSPOT, em Notícias de cinema (Temas: Obituário, Cinema Europeu)

Béla Tarr (1955-2026): poeta do fim do mundo

O cineasta húngaro morreu aos 70 anos, de "doença grave e prolongada".

Morreu esta terça-feira, aos 70 anos, Béla Tarr, o mestre húngaro que redefiniu as fronteiras do cinema contemporâneo. Figura singular e intransigente, com uma obra marcada por longos planos-sequência e um preto e branco profundo, Tarr retirou-se da realização em 2011, mas a sua influência permanece incontornável. 

Nascido em Pécs, em 1955, Tarr iniciou-se no cinema de forma quase clandestina, ainda adolescente, filmando em 16mm a realidade urbana da Hungria socialista. Estudou na Academia de Teatro e Cinema de Budapeste e iniciou o seu percurso no final da década de 70 com uma abordagem próxima do realismo social. Obras como "Ninho de Família" (1979) e "O Intruso" (1981) mostravam um jovem realizador interessado nas experiências de gente comum no quotidiano húngaro.

Em "Almanaque de Outono" (1984), começou a explorar uma encenação mais coreografada, mas foi o encontro com o escritor László Krasznahorkai (recentemente distinguido com o Nobel da Literatura) que operou a transformação radical no seu estilo. A partir de "Perdição" (1988), o cinema de Tarr abandonou a narrativa convencional para se focar na textura do tempo e numa representação sombria da realidade, onde é patente uma visão profundamente pessimista da condição humana.

A consagração definitiva chegou em 1994 com "Sátántangó", uma epopeia de sete horas e meia sobre o colapso de uma cooperativa agrícola que desafiou a resistência dos espectadores e a lógica do mercado cinematográfico. Através desta obra, Tarr provou que o cinema pode ser uma experiência transcendental, onde o tempo não é apenas um suporte, mas o protagonista. 

The Turin Horse

Seguiram-se "As Harmonias de Werckmeister" (2000) e "O Cavalo de Turim" (2011), galardoado com o Grande Prémio do Júri em Berlim, filme com o qual anunciou a sua reforma prematura, alegando que já tinha dito tudo o que tinha a dizer. "O círculo fechou-se", disse na altura.

Após deixar a realização, dedicou-se ao ensino e à formação de uma nova geração de cineastas, entre Budapeste e Sarajevo.

Em 2023, recebeu o prémio de carreira da Academia Europeia de Cinema.

Exercício de fascinante paciência e profundo interesse pela falibilidade humana, o cinema de Béla Tarr é também indissociável das suas parcerias criativas: a montagem de Ágnes Hranitzky, a escrita de Krasznahorkai e as composições hipnóticas de Mihály Vig. Juntos, criaram um universo onde a chuva, a lama e o vento não são meros cenários, mas forças que moldam o destino de personagens presas em ciclos de esperança e traição.

Fica a memória de um homem que nunca cedeu e viu no cinema uma ferramenta para observar, com paciência infinita, a dignidade que resta na derrota