Publicado em 31 Mar. 2026 às 16:05, por Samuel Andrade, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: Síndrome do Vinagre)
A propósito de Robert Beavers na Cinemateca Portuguesa e da primeira longa-metragem de Kristen Stewart.
"Os opostos atraem-se", é hábito dizer-se. Em contexto de cinema, esse chavão converte-se em algo de fascinante quando se observam dois produtos fílmicos, com origens tão diferentes, a confluírem de modo inesperado numa experiência de idêntica satisfação.
Nos últimos tempos, sentiu-se essa congregação entre a filmografia de Robert Beavers, a quem a Cinemateca Portuguesa dedicou extensa retrospetiva na última semana de março, e "A Cronologia da Água", a estreia de Kristen Stewart ao leme de uma longa-metragem.
Cineasta experimental norte-americano radicado na Europa desde 1967, Robert Beavers dedicou-se, nos seus filmes, à exploração e reflexão da capacidade do cinema e, sobretudo, da materialidade da película de 16mm, ao revelar formas, cor, texturas e movimento.
Em particular, "From the Notebook of...", título constituído por material rodado entre 1971 e 1998, invoca no espectador todas as características básicas que distinguiram o cinematógrafo de qualquer outra expressão artística.
Através da montagem – mais um elemento essencial da Sétima Arte – ritmada, repetitiva e frenética das suas imagens, Beavers assume, ainda, um discurso sobre a sua pessoa, as suas memórias, a sua vivência com o companheiro e também cineasta Gregory Markopoulos, as suas viagens por cidades europeias e, ultimamente, a sua filosofia ("o Cinema não é ilusão de movimento, é movimento") em relação ao próprio cinema. Nessa absoluta composição formal de veloz sucessão de planos, dir-se-ia estarmos dentro de um filme íntimo de ação.
Numa realidade totalmente antagónica de produção, encontramos intenções e concretização idênticas às de Robert Beavers em "A Cronologia da Água".
Partindo da autobiografia literária da escritora Lidia Yuknavitch, que detalha uma juventude marcada por abuso familiar, insucesso e consumo de álcool e drogas, Kristen Stewart constrói o fio narrativo (isto é, a descrição de memórias pessoais) da sua protagonista através de mecanismos dignos do cinema experimental: montagem subjetiva, dessincronia de imagem e som, a repetição de planos em furiosa cadência... Em suma, estamos perante cinema experimental em busca de alargada plateia.
Para uma primeira obra realizada por alguém sediada, desde muito jovem, na máquina mainstream (lembram-se dela na saga "Twilight"?) de Hollywood como é Kristen Stewart, "A Cronologia da Água" impressiona tanto por uma convicta marca de autor, como pela referida segurança na abordagem aos mecanismos do cinema experimental – inclusivamente, e não é mero pormenor, o filme também foi rodado em 16mm.
Robert Beavers e Kristen Stewart, uma reunião de dois "universos cinematográficos" tão díspares e, ao mesmo tempo, tão semelhantes; fica, portanto, a sugestão de uma potencial sessão dupla composta por "From the Notebook of..." e "A Cronologia da Água".
É provável, e assumo plenamente os riscos, que o teor dos motivos expressos neste texto poderá ofender as suscetibilidades mais puristas. Contudo, a fruição do Cinema – sobretudo, quando a associação de experimentalismo e materialidade analógica entre dois filmes é quase palpável – revela-se, também, no sentimento e partilha de relações que a priori não seriam imediatamente evidentes.