Cartaz de cinema

"O Espírito da Colmeia" por Pedro Sesinando
"Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma": simetria dos inquietos

Publicado em 24 Sep. 2026 às 11:16, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia)

"Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma": simetria dos inquietos

O mais recente filme de Jane Schoenbrun mostra uma cineasta em pleno processo de maturação do seu vocabulário visual.

Entre as várias leituras que se podem retirar da estética do cinema de Jane Schoenbrun, incluindo nesta análise preliminar os seus dois trabalhos mais recentes, está a vertigem que a cineasta norte-americana demonstra por trabalhar a nostalgia, ou por outra, como instrumentaliza a nostalgia para chegar à criação de universos em que o naturalista e o onírico tendem a conviver com certa harmonia. 

Tal já era assumido em "I Saw the TV Glow" - que simplificaremos de agora em diante para ISTTG - filme de 2024 que segue a relação de dois adolescentes solitários que encontram chão comum precisamente na inépcia social e na afinidade que sentem por uma misteriosa série de televisão.

Destacava-se aí a forma como Schoenbrun mantinha o filme numa constante tensão típica do terror psicológico, sem, no entanto, usar do artifício para derivar para o próprio género, antes usando-o para enfatizar o retrato de angústia e alienação adolescente de personagens que vagueavam pelo ambiente suburbano da década de 90, numa era pré-Internet em que a televisão ainda tinha relevância suficiente para criar refúgios mais ou menos obsessivos e sem o imediatismo da experiência atual.

É a partir da sublimação desta linguagem cinematográfica que Schoenbrun constrói "Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma", explorando mais uma vez a ideia de refúgio e consequente isolamento social dos protagonistas e tendo como leitmotiv, tanto em ISTTG como neste "Camp Miasma", o tumulto interior que supõe a descoberta da sexualidade ou, mais em particular, da identidade sexual. 

Mais uma vez, Schoenbrun aposta em criar uma tensão latente para procurar simetria na inquietude interna da personagem de Kris (Hannah Einbinder), uma jovem realizadora que tem em mãos a possibilidade de reavivar uma franquia de filmes de terror, cujo volume original a marcou durante os primeiros anos da adolescência. Realizadora em ascensão, sobre quem circula um certo entusiasmo em redor de uma curta-metragem que deu que falar no festival Sundance, Kris suspeita que o estúdio a escolheu numa tentativa desesperada de reabilitar a franquia do epíteto misógino a que ficou votada com o passar do tempo. 

Disposta a procurar uma visão para o filme que a faça sentir realizada para lá da mera instrumentalização a que o estúdio a possa estar a sujeitar, Kris procura Billie Presley (Gillian Anderson), protagonista do primeiro filme que, após se afastar precocemente da indústria, vive agora num estado parcial de eremitismo precisamente no mesmo acampamento onde decorreram as gravações do filme original. 

A introdução de Billie permite a Schoenbrun um leve gracejo, prontamente explicitado pela própria personagem, ao apresentá-la inicialmente como um pastiche da Norma Desmond de "Sunset Boulevard", aparentemente presa a uma realidade que apenas ela reconhece. Mas é esta suposta alienação de Billie que permite não só a evolução da própria personagem como também contribui para o arco narrativo de Kris, já que Billie representa um estado de lucidez, de conforto no universo alternativo que criou para si, que Kris inconscientemente almeja. 

Esta ideia é abordada de forma pouco subtil por Schoenbrun, criando uma 'relação mentor-aprendiz' entre ambas que, mais uma vez, encontra simetria na relação entre Owen e Maddy em ISTTG. Há, porém, diferenças decisivas entre Owen – cujo estado de confusão resulta da incapacidade de se definir, e Kris que, embora demonstrando bastante assertividade na forma de se identificar, não consegue evitar a dormência emocional e aceita a inépcia sexual como uma inevitabilidade.

Para metaforizar o despertar de Kris, paralelo ao que Billie experimentou no filme original, Schoenbrun socorre-se da desconstrução do slasher, saltando entre o filme real e o filme dentro do filme – o original -, hiperbolizando até ao cómico, a ponto de entregar a redenção de Kris, a sua ascensão a um novo estado de consciência, a um assassino impiedoso de nome Little Death, termo que ganha outro contorno quando traduzido para o francês petite mort.

E é com a infantilidade deste jogo de palavras que Schoenbrun resgata o acampamento da sua triste sina, transformando-o de um sítio onde se expira para um sítio onde se renasce.

"Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma" estreia nos cinemas a 24 de setembro.