Cartaz de cinema

"Abril": o filme proibido na Geórgia que expõe a luta silenciosa das mulheres

Publicado em 18 Sep. 2025 às 07:45, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia, Cinema Europeu)

"Abril": o filme proibido na Geórgia que expõe a luta silenciosa das mulheres

A realizadora Dea Kulumbegashvili volta às raízes para contar a história de Nina, uma médica que pratica abortos clandestinos numa região remota da Geórgia. Proscrito no seu país, "Abril" chega às salas portuguesas como um retrato da resistência feminina perante a erosão dos direitos reprodutivos.

Em conversa com Dea Kulumbegashvili, a propósito do seu mais recente filme "Abril", uma das estreias desta semana nas salas portuguesas, dizia-nos a realizadora georgiana que, na construção de Nina, a protagonista do filme, decidiu voltar à sua base como argumentista: 

"Enquanto realizadora e contadora de histórias, estou interessada em questionar o que é um herói. Talvez que, com tantos heróis grandes e exagerados dos nossos tempos, tenhamos esquecido que os verdadeiros atos de heroísmo são cometidos num segundo plano por gente que não é visível. E isso é, antes de mais, uma decisão."

É a partir dessa noção que se constrói a personagem da médica obstetra que realiza abortos de forma clandestina numa região remota da Geórgia onde as comunidades, para lá do estigma social, têm dificuldade, ou impossibilidade, em aceder a serviços de saúde. 

Pese embora o impacto visual que "Abril" propõe, há uma subtileza explícita na maneira como Kulumbegashvili conduz o filme de forma a que este se passe, por uma boa parte, dentro da consciência de Nina e da sua noção de missão, de alguma forma sacrificial e vivida de uma forma trágica, sem demasiada paixão pelo desígnio a que a sua moral a devota. 

Nina vive esta realidade não só como uma inevitabilidade, mas também com uma rotina - algo que lhe é imposto e a que ela se propõe resistir, sujeitando-se cada dia à solidão imposta pela clandestinidade a que a sua prática obriga. 

Também Dea Kulumbegashvili opta por resistir na linguagem cinematográfica que aperfeiçoa em "Abril" e que já vinha de "O Começo", o seu filme anterior, esculpindo uma estética a contramão sustentada por composições visuais muito cuidadas, mas em que o ritmo e a noção de passagem do tempo ganham preponderância. De resto, não seria descabido, ao olhar para a obra de Kulumbegashvili, invocar Nuri Bilge Ceylan, na forma como usa a languidez do tempo para convidar o espectador a mergulhar na cena e, de certa forma, a colocá-lo no mesmo patamar emocional em que se encontra Nina - sitiada e sem possibilidade de resgate pela passagem das horas. 

O tempo, enquanto ferramenta do estado de sítio em que Nina habita, ganha ênfase nas cenas em que esta é confrontada pela administração do hospital pelas suas práticas extralaborais, em audiências informais pontuadas pelo tiquetaquear de um relógio. 

Este elemento, permite a Kulumbegashvili acentuar a ideia de que Nina se encontra num estado de julgamento constante, seja exógeno, ou autoconsciente, e contextualiza a impossibilidade de se dar ao luxo de alimentar afetos na sua vida particular. 

Esta vertente existencial, de solidão estoica projetada na personagem, associada à temática social sobre os direitos de decisão das mulheres sobre o seu próprio corpo, redunda num conceito que a própria autora refere, sobre as diferentes noções de resistência, em que tratar algo tão disruptivo de uma forma mais serena que ruidosa pode ser um ato revolucionário. Em particular numa altura, acrescentamos nós, em que o entretenimento parece ser o móbil principal das formas de arte, e do cinema em particular. 

Proscrito na sua Geórgia natal, onde o filme não teve distribuição, "Abril" é inspirado numa realidade próxima a Dea Kulumbegashvili, que cresceu na região retratada no filme, e aborda um tema facilmente transportável para outras geografias, em particular aquelas dispostas a abraçar uma deriva conservadora que se manifesta, entre outras formas, no ataque aos direitos reprodutivos das mulheres. 

Sobre o seu país, diz-nos Dea Kulumbegashvili que, fazendo ela parte de uma geração que viveu as conquistas sociais, entre as quais a emancipação das mulheres, percebeu que há uma geração posterior que tem dificuldades em entender que mesmo os direitos elementares resultaram de um processo de luta:

"No início dos anos 2000, quando a Geórgia viveu uma espécie de revolução (n.d.a: o levantamento que ficou conhecido como a Revolução das Rosas em 2003) e começou a tornar-se um país democrático, sentimos subitamente a possibilidade de sermos cidadãos iguais dentro do nosso país. Mas há cerca de dez anos, ou talvez um pouco mais, sentimos que voltou a mudar."

E acrescenta: "A minha geração cresceu em guerra civil, numa altura em que o sentimento de violência era bastante palpável, real. Conseguíamos vê-lo todos os dias nas ruas. E os direitos das mulheres estavam num estado terrível. O casamento de menores era algo bastante normal. E houve algumas afortunadas, como eu própria, que vinham de famílias em que nos diziam claramente que esta situação não era aceitável. A minha geração, exatamente por que passámos por esta revolução, começou a perceber que podíamos lutar pelos nossos direitos e conquistar algo. E isso tornou-nos mais confiantes. Mas a geração que veio depois de nós, já cresceu com esses direitos adquiridos e acreditou que sempre estariam lá. E isso é uma ilusão." 

Em Portugal (e não só) hoje, como na Georgia de Dea Kulumbegashvili, saber como se elabora em cima do construído e se evita dar ouvidos a um instinto destrutivo, parece ser o dilema dos nossos tempos. Citando mais uma vez a autora, a propósito da vertigem de negligência que teimamos em devotar ao nosso passado recente:

"O meu filme é, neste momento, talvez, mais relevante do que quando o comecei a fazer. E isso não é bom sinal."

"Abril" estreia hoje nas salas de cinema portuguesas.