Cartaz de cinema

"O Síndrome do Vinagre" por Samuel Andrade
A redescoberta de "Now We're in the Air" e um breve reencontro com Louise Brooks

Publicado em 26 Out. 2020 às 20:49, por Samuel Andrade, em Notícias de cinema, Opinião (Temas: Síndrome do Vinagre)

A redescoberta de "Now We're in the Air" e um breve reencontro com Louise Brooks

É agora possível conhecer 23 minutos de um filme perdido há várias décadas e redescoberto em 2016.

Produzido em 1927 e anunciado como uma "farsa cómica sobre a Primeira Guerra Mundial", a sinopse do filme mudo "Now We're in the Air" (de Frank R. Strayer, um "tarefeiro" de Hollywood com mais de oitenta títulos na sua filmografia), dava conta da história de dois aviadores americanos (Wallace Beery e Raymond Hatton) que, entre os combates nos céus da Europa, se apaixonam por duas gémeas francesas – ambas protagonizadas por Louise Brooks.

Se o contexto narrativo e a presença da icónica Louise Brooks (antes da sua colaboração em obras do cineasta alemão Georg Wilhelm Pabst) num duplo papel já eram motivos suficientes para desejarmos conhecer "Now We're in the Air", o facto de o filme ter estado perdido durante décadas aguçou ainda mais a curiosidade de cinéfilos e historiadores.

Foi necessário esperar quase 90 anos para que, em 2016, o Arquivo Nacional da República Checa anunciasse a redescoberta do filme, numa cópia incompleta em película de nitrato de 35mm, com intertítulos em checo e apresentando sinais de avançada deterioração física. Em conjunto com instituições de preservação cinematográfica norte-americanas – nomeadamente, o San Francisco Silent Film Festival e o historiador Kevin Brownlow –, o trabalho de restauro operado nesse material sobrevivente, em 2017, permitiu a recuperação de 23 minutos de "Now We're in the Air".

É, aliás, por iniciativa do San Francisco Silent Film Festival que podemos observar os fotogramas restaurados do filme:

Para além da importância histórica desta redescoberta, reapreciar "Now We're in the Air" confere, igualmente, a possibilidade de preencher uma "lacuna" na filmografia da atriz Louise Brooks, figura de permanente impacto cultural, tanto pela sua participação nos filmes "Pandora's Box" (1929) e "Diary of a Lost Girl" (1929), como por um inconformismo face às normas de Hollywood (reveladas no seu livro de memórias, "Lulu in Hollywood", publicado em 1982) e singular sensualidade que exibiu ao longo da sua breve carreira no grande ecrã.

Quanto a "Now We're in the Air", e em 23 singelos minutos, podemos constatar a influência do humor slapstick (muito em voga na década de 1920) na sua realização, um avultado investimento de produção e, para os fãs da atriz, Louise Brooks em registo cómico e envergando um sugestivo "tutu" preto.