Publicado em 16 Apr. 2026 às 18:36, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia)
A partir do exílio da sua mãe na União Soviética, durante a Guerra Civil Espanhola, a realizadora Ana Pérez-Quiroga estreia-se no cinema com uma reflexão sobre a preservação da memória.
São factos sobejamente conhecidos, para quem acompanha a história recente do país vizinho, que corria o ano de 1936 quando a jovem República espanhola se viu ameaçada por uma sublevação militar comandada e executada por militares monárquicos e reacionários saudosos do regime de Primo de Rivera. A revolta, que mergulharia o país numa guerra civil até 1939, culminaria com a vitória fascista e a ascensão ao poder do General Francisco Franco.
É também conhecida, em particular pelo célebre quadro em que Picasso retrata o bombardeamento da vila biscaína de Gernika, a agressão a que foi sujeita a população civil do País Basco durante a guerra, em particular através dos raids da Luftwaffe, numa primeira manifestação do que seria o horror nazi que se estenderia pela Europa nos anos 40. Menos conhecido é o facto de, enquanto as bombas caíam em Espanha, cerca de 80 mil crianças eram enviadas pelas suas famílias para os vários países que se dispunham a acolhê-las, para um exílio que se acreditava curto.
Entre essas crianças estavam a tia e a mãe da artista plástica e realizadora Ana Pérez-Quiroga, acolhidas pela URSS, e é precisamente sobre a incrível história de Angelita Pérez, que partiu para o exílio aos 4 anos e só regressaria a Espanha quase 20 anos depois, que trata "¿De que Casa Eres?", o primeiro filme da realizadora portuguesa.
É legítimo que, ao sentirmo-nos embalados pelo relato emotivo e detalhado de Angelita sobre como viveu e cresceu na URSS – cuja narração vai sendo pontuada não só com imagens de arquivo, mas também com cuidadas encenações da autoria da própria Ana Pérez-Quiroga – nos tentemos a limitar o filme à categoria de documento histórico, em modo de tradição oral sobre um tempo em que a Europa vivia focos de guerra dispersos pelo seu território, mas a verdade é que "¿De que Casa Eres?" funciona para lá dessa vertente didática, não só pela inegável qualidade aventureira da narração que vamos absorvendo, mas também porque Angelita se reserva o legítimo direito de não entrar em detalhe sobre os temas que entende mais desagradáveis, em particular no que a sua família, de afinidade republicana, passou durante o conflito.
De facto, e através da forma como é tecido por Angelita e conduzido por Ana Pérez-Quiroga, o filme transcende o relato histórico, tornando-se numa inevitável reflexão não só sobre a importância da memória coletiva – tão relevante num contexto atual dado a narrativas revisionistas – ,mas também sobre como edificamos a vida a partir de fragmentos de memória, nossas, ou de quem nos está próximo, e de como vivemos a partir do que cristalizou em nós em relação a essas memórias – a história dos peixes vivos na banheira, que Ana conta como uma memória real e que é desmentida pela mãe é disso um exemplo magnífico.
Todas estas ideias evoluem tranquilamente no relato de Angelita, resultando de uma forma orgânica na questão de pertença e identidade, inevitável para quem, após ter sido tão cedo forçada a viver afastada da família, se vê regressar já adulta a um país e a um entorno que tem dificuldades em reconhecer.
Talvez que – e assumindo aqui o maior grau de especulação - para lá da questão familiar, tenha sido essa a razão para que Angelita Pérez tenha criado raízes tão fortes em Portugal – permitiu-lhe libertar-se do paradigma de pertencer a dois lugares não pertencendo plenamente a nenhum.