Publicado em 28 May. 2026 às 21:45, por Pedro Sesinando, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: O Espírito da Colmeia, Cinema Português)
Projeto coletivo destinado a dar forma à realidade dos moradores de vários bairros do Monte da Caparica, "Ali, Aqui" parte de uma premissa que ecoa a simplicidade humanista de Abbas Kiarostami. Longe do registo etnográfico, o filme prefere apoiar-se na leveza do quotidiano e na centralidade da memória coletiva, resultando numa obra que, mesmo quando opta por não esgotar o seu potencial, se mantém rigorosamente fiel à dignidade dos que retrata.
Num dos mais inspirados momentos de Abbas Kiarostami, o filme "Onde fica a casa do meu amigo?", Ahmed, um menino de oito anos, sai de casa imbuído de um espírito de missão necessário para devolver um caderno esquecido a um colega de escola que vive numa outra aldeia. A caminhada de Ahmed, mais longa que o previsto, permite a Kiarostami construir uma pequena epopeia, destapando um pouco do Irão rural, não só na sua paisagem, mas também nas dinâmicas de comunidade e relação entre homens, mulheres e crianças.
Tal como em Kiarostami, também em "Ali, Aqui", Rafael sai de casa por um motivo igualmente nobre, o de comprar uma garrafa de vinho para o pai acompanhar a cachupa do almoço. E também Rafael se vê acometido por inocentes contratempos que o levarão a vaguear pelo bairro, afastando-se da sua tarefa e abrindo espaço para encontros esporádicos com outras pessoas da comunidade que, também elas, têm histórias para contar.
"Ali, aqui" começa a contar-se a partir de uma tragédia – o desmoronamento de parte do antigo Lazareto de Porto Brandão, na margem sul do Tejo, que causou a morte de duas crianças e levou ao consequente desalojar de uma comunidade que ali se formara, maioritariamente, por pessoas oriundas das antigas colónias. Cruzam-se assim dois tempos, passado e presente, que convergem na ideia de uma comunidade que resistiu e se readaptou, após o realojamento no bairro do Asilo, entre outros, no território do Monte da Caparica.
Este apontamento histórico dá o mote em "Ali, aqui" para explorar uma ideia de perseverança que transpira por todo o filme e assume diferentes formas, seja pela forma como é entendida a preservação da cultura e línguas maternas de muitos dos habitantes do bairro - o crioulo cabo-verdiano e guineense, por exemplo, que é totalmente assimilado pelas gerações mais novas e se transforma num fator de aproximação entre as pessoas de ambas as ascendências -, seja na sua dimensão geográfica, ao acompanhar uma comunidade que resiste para lá da insularidade do bairro, cujo distanciamento se manifesta em tela pelos planos abertos que mostram em fundo símbolos de outras realidades urbanas aparentemente distantes, como a ponte 25 de Abril ou o Cristo-Rei.
Acresça-se que, estes subtextos, embora bastante claros, vêm sugeridos num tom ausente de dramatização, antes bem-humorado e que se faz assentar na normalidade do quotidiano.
Será esse o grande mérito do filme, que rejeita a catalogação etnográfica, evitando ancorar-se na necessidade de um retrato definitivo da comunidade que acompanha, antes focando-se no que move os seus protagonistas e o que faz daquelas pessoas um coletivo.
É verdade que "Ali, aqui" parece decidir-se ficar pela rama, tendo em conta que parecia ter muito mais para contar, mas tem a capacidade de se manter fiel ao que se propõe, preferindo dar a ênfase nas expressões artísticas, da música à poesia, que convergem numa ideia de estabelecimento de identidade construída a partir dos ombros dos antepassados.
A relevância da memória, enfim. Afinal, sentimentos tão facilmente extrapoláveis para qualquer outra realidade.