Publicado em 15 Apr. 2025 às 16:54, por Samuel Andrade, em Opinião, Notícias de cinema (Temas: Síndrome do Vinagre)
Na era do digital, qual será o genuíno aspeto de um filme rodado há décadas? E por que razão nos deveremos inquietar tanto com este tema?
Eis que, súbita e persistentemente, um conjunto de "problemáticas" tomou conta dos artigos de opinião, dos posts e caixas de comentários nas redes sociais e das conversas em arquivos fílmicos, ou cabines de projeção.
Na era da consolidação digital, qual será o genuíno aspeto de um filme rodado há dez, vinte, cinquenta, ou mais anos? Terá a tecnologia, na sua aparente intenção de emular a figura analógica, desvirtuado as paletas originais do cinema? E, ao fim e ao cabo, por que razão nos deveremos inquietar tanto com este assunto?
Para esse debate (menos recente do que se pensaria), o thriller "Sete Pecados Mortais", de David Fincher - reposto em sala, no início deste ano, por ocasião do seu trigésimo aniversário -, é tanto um bom ponto de partida como caso de estudo.
A remasterização, em resolução 4K a partir dos negativos originais em 35mm do filme, chamou a atenção pela quantidade de alterações - e recorrendo à inteligência artificial(!) - orgulhosamente admitidos pelo realizador à Entertainment Weekly: manipulação de focagem, de enquadramentos, estabilização de planos filmados com câmara móvel e outras "emendas" mais dignas de efeitos visuais que de um restauro notadas por olhares atentos.
É ao nível de intervenção sobre a iluminação e o contraste do filme que se levantam as maiores dúvidas. Sobre isso, importa especificar que, na estreia comercial em 1995, "Sete Pecados Mortais" foi exibido em cópias de 35mm, forjadas a partir de um trabalho específico denominado Color Contrast Enhancement, o qual conferiu a saturação de cor e o rigoroso contraste que recordarão muitos espectadores do filme.
Os projecionistas da época recebiam, inclusive, instruções detalhadas para se garantir esse mesmo efeito formal na tela.

As diversas versões que "Sete Pecados Mortais" conheceu, ao longo das últimas três décadas, revelaram um gradual afastamento daquela imagem original.
A que chegou aos cinemas, este ano, não foi exceção, e a simples comparação entre o novo Blu-ray 4K UHD do filme, e uma edição comercial no mesmo suporte, de 2011, renova esse exercício de "antes e depois".

Imagens à esquerda: edição 2011 em Blu-ray; imagens à direita: edição 2025 em 4K UHD Blu-ray (fonte: Highdefdiscnews.com)
Desse modo, até o espectador mais leigo nestas matérias se interrogará sobre qual será a variante definitiva de "Sete Pecados Mortais". A que estreou em 1995? Alguma das que constam nos vários produtos home cinema, entretanto lançados no mercado? Ou a de 2025, que o próprio Fincher considera ser o "novo negativo" do seu filme?
A tecnologia hoje disponível, capaz de exumar informação de cor, luz e resolução de matrizes analógicas, é, somente, um elemento novo em discussão antiga sobre o que se pode considerar como o aspeto definitivo de uma determinada obra cinematográfica.
O historial destas interrogações já provém de quando apenas existia produção e exibição em película. Um exemplo famoso disso é a comparação de duas cópias 35mm de projeção de "A Mulher que Viveu Duas Vezes", de Alfred Hitchcock. Impressas sensivelmente na mesma época, mas conservadas em arquivos separados, são notórias as diferenças cromáticas numa rápida análise do mesmo fotograma.

Fonte: Bregt Lameris, "Feeling Colour: Chromatic Embodiment in Film Culture, 1950s–1960s"
O cinema a preto e branco tampouco é impermeável a essas inconsistências. Entre a cópia em película de enésima geração de "À 1 e 45" (também de Hitchcock) que recentemente me passou pelas mãos na cabine da Cinemateca Portuguesa, e uma sua congénere em Blu-ray, as disparidades de contraste e iluminação são evidentes. Dir-se-ia, quase, que a expressão da atriz Sylvia Sidney e a atmosfera da sequência se alteram consoante o suporte em que visionamos o filme.

Uma das ilações desta reflexão será que, como nenhuma outra arte, a fruição do cinema é a que mais depende da própria evolução das suas características técnicas e contextos temporais.
Ver o mesmo filme em película de nitrato numa projeção a arco de carbono, ou a partir de uma cópia em poliéster com lâmpadas de xénon, são experiências absolutamente distintas.
Pela mesma lógica, qualquer trabalho de digitalização de um título rodado em era pré-digital, obrigatoriamente, não pode menosprezar que os equipamentos modernos (projetores, monitores informáticos, televisores UHD, ...) irradiam mais brilho do que as máquinas de projeção analógica - logo, mais um desfasamento da primeira imagem obtida de um negativo original.
Assim, a experiência de cinema vai depender da (legítima) vontade de expressão dos realizadores, das condições técnicas de produção e exibição e do grau de exigência de um espectador.
Pessoalmente, continuarei a preferir projeção analógica para uma imagem impressa em película, e projeção digital para uma imagem digital. Talvez, e no seio destas circunstâncias, tudo se resumirá, simplesmente, ao que cada indivíduo busca quando assiste a um filme.