Cartaz de cinema

A curiosa história da polémica em redor das declarações de Bertolucci sobre "O Último Tango em Paris"

Publicado em 4 Dez. 2016 às 19:00, por , em Notícias de cinema (Temas: Celebridades, Bastidores)

A curiosa história da polémica em redor das declarações de Bertolucci sobre "O Último Tango em Paris"

Na última semana, declarações do realizador Bernardo Bertolucci a um programa de televisão holandês em 2013 provocaram uma onda de indignação digital.

Num vídeo, o italiano que assinou "O Último Tango Em Paris" confessa que não avisou Maria Schneider do que se iria passar na famosa cena da violação com Marlon Brando.

Atrizes como Jessica Chastain, Shannon Woodward e Rachel Wood, ou a realizadora Ava DuVarnay, manifestaram-se no Twitter:

Do lado masculino, Michael Cudlitz (o Abraham de "The Walking Dead") foi bem mais violento na forma como exprimiu os seus sentimentos:

O mais curioso é que nada do que foi dito por Bertolucci é novidade. A própria atriz referiu-se ao caso publicamente, em 2007, poucos anos antes de morrer.

Vale a pena rever o percurso da informação e a forma como acabou por ressurgir à superfície na passada semana.

Tudo se conta em três momentos:

Em 2007, a atriz Maria Schneider fala ao Daily Mail por ocasião do 35º aniversário da estreia de "O Último Tango em Paris". A história da intensa relação carnal entre uma jovem (Schneider na altura tinha 19 anos) e um homem bastante mais velho (Marlon Brando tinha 48 na época deste filme) provocou um escândalo, aquando do lançamento, em 1972. Repleto de cenas arrojadas para a altura, chegou a ser banido em alguns países.

Na entrevista, a atriz diz que a cena da sodomização não constava do argumento e que foi Brando o autor da ideia: "Só me disseram antes da cena ser gravada. Fiquei furiosa. Devia ter chamado o meu agente, ou trazido o advogado ao local porque não se pode forçar alguém a rodar uma cena que não está no argumento, mas na altura não sabia disso".

Maria Schneider acrescenta ainda que não teve qualquer apoio ou conforto por parte do seu parceiro de cena após a filmagem e que "embora fosse apenas uma simulação, as minhas lágrimas foram bem reais".

Na altura, esta revelação passou despercebida.

Em 2013, dois anos após a morte da protagonista, numa entrevista ao programa holandês "College Tour", do canal público de televisão daquele país, Bertolucci confirma que Schneider não foi avisada previamente da referida cena. Assume a autoria da ideia a meias com Brando e justifica-se dizendo que pretendia obter uma reação mais genuína, de verdadeira humilhação.

Na mesma altura, repete praticamente o mesmo discurso noutras duas entrevistas, ao The Hollywood Reporter e ao The Guardian.

Gera-se algum burburinho em Itália, mas pouco mais.

Terceiro momento chave deste processo. A 23 de novembro de 2016, uma ONG espanhola publica o excerto da entrevista à TV holandesa onde Bertolucci fala da violência exercida sobre a inexperiente atriz. O objetivo é assinalar o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres.

Só neste momento é que a história ganha tração e viralidade. A Elle fala de "conspiração", o The Guardian refere que a filmagem não foi "consensual", o The Independent chama a atenção para o desprezo a que foram votadas as palavras ignoradas.

Em suma, foram precisos 12 anos para que Maria Schneider fosse ouvida.

Um último detalhe, apesar de toda a polémica, e dos processos em tribunal por obscenidade, "O Último Tango em Paris" valeu a Brando uma nomeação para o Oscar de melhor ator e a Bertolucci a nomeação na categoria de melhor realizador.